Objectos que se chamam de normais
Sem comentários Sobre os brinquedos
Os brinquedos são umas coisas muito inteligentes porque servem para brincar e fazer brincadeiras brincando com eles. Também servem para atirar à cabeça dos outros miúdos quando eles me irritam e começam a dizer que eu cheiro mal dos pés. Eu não cheiro mal dos pés, e às vezes cheiro é um bocadinho mal debaixo dos braços, mas isso, diz o meu pai, é normal e até saudável. Ser saudável e cheirar mal não é uma coisa muito bonita e boa, mas também há muitas coisas que não são bonitas mas são precisas para vivermos, como o arame farpado, o sumo de ananás de pacote e a chave de grifos. A chave de grifos é uma chave que o meu pai tem e que utilizou uma vez para entrar na casa da vizinha Graciete, que tinha ido de férias e deixou o rádio ligado na missa.
Eu não tenho muitos brinquedos. Só tenho um cavalo de balanço, 45 livros, 17 carros grandes, 18 carros pequenos, e um que parece o carro do Bátemén, mas que não é porque o carro do Bátemén é preto e aquele que eu tenho é só escuro. Tenho também muitos puzles, que são umas peças que se encaixam umas nas outras para fazer uma cara ou paisagem ou nada de especial. O puzle é assim como se fosse o lego, só que não vai para cima. Ah, e também tenho legos. Tenho 14 mas um deles é um lego da feira que a minha avó comprou, e que uns dias encaixa, e noutros não. O meu pai diz que o lego é rasca, mas não me parece porque eu nunca vi o lego da feira a ir à casa de banho.
Tenho também 37 figuras de um exército, mas que nunca combatem e fazem sempre paz. Fazer paz é não fazer nada e ficar a gozar a vida, a beber cervejas, comer tremoços e dizer mal do governo. O governo é um senhor que vive numa casa que se chama governadoriadeira, e que quer mandar nas pessoas mas ninguém presta atenção ao que ele diz. Ele depois fica triste, e diz que a culpa é a da oposição. A oposição é o vizinho da frente, e que ouve música até muito tarde e irrita o governo.