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Sobre os extra-terrestres

Os extra-terrestres são uma pessoas que não são pessoas porque não vivem em Portugal, e nem sequer no mundo e arredores. Os extra-terrestres são assim coisas que vêm de outros planetas, e só existem nos filmes americanos. Nos filmes da Europa e da França eles não existem, porque esses filmes são sempre sobre coisas para os adultos pensarem muito, e como os extra-terrestres não pensam muito bem, eles não entram nesses filmes.

Eu digo que os extra-terrestres não pensam muito bem porque nos filmes eles perdem sempre para os americanos, e eles já são bastante estúpidos, parvos, gordos e sebentos. Mesmo assim, os americanos têm coisas boas, como os cáubóis, hambrugas com queijo mas sem pimento, e o pato Mickey. Eles têm também outras letras no abecedário que nós não tínhamos, e que antes não faziam falta mas agora fazem para dizer worten, kaspa e ynconstitucionalissimamente, que é uma palavra grande, comprida e que não quer dizer grandes coisa porque tem a ver com a política, e a política, diz o meu pai, é chula e não vale um tostão. O tostão era uma moeda que existia quando o meu pai era pequeno. Agora já não existe porque o meu pai é grande.

Os extra-terrestres podem ser chamados de étês, que é também o nome de um filme antigo em que um senhor anão e pequeno vestia um fato de borracha, castanho com uma ponta vermelha com luz, e fingia telefonar para casa. Ele também dizia que era um extra-terrestre, só que era a fingir porque os extra-terrestres são todos verdes, que é a cor mais horrível e feia para ter na pele.

Ser extra-terrestre é uma chatice porque eles andam em discos voadores que giram muito depressa, e aquilo deve dar dor de cabeça. Além disso, como aquilo gira muito, eles andam sempre tontos e nunca acertam no sítio para onde querem ir. E é por isso que eles nunca chegaram ao nosso planeta e nem sequer a Portugal.

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Sobre as manas princesas

O meu irmão já nasceu, e afinal é uma irmã. Irmã também se pode dizer mana, porque como não tem o til é mais fácil de escrever. Não me importo nada que ela seja uma menina, porque assim fico com os carros todos para mim. É que as meninas não sabem brincar com os carros, e o meu pai até diz que elas são azelhas a estacionar. Eu às vezes não estaciono os carros depois de brincar com eles, e depois a minha mãe ralha comigo. Ela ralha porque se eu não arrumar os carros, ela também não os apanha porque, como já disse, as meninas não sabem estacionar e a minha mãe é uma menina grande.

A minha mana é chamada de princesa por toda a gente. Isto que dizer que eu deveria ser um príncipe, mas como não tenho cavalo branco nem armadura, não devo ser coisa nenhuma. Para a minha mana ser uma princesa, o meu pai tem que ser o rei, o que não é verdade. A única vez em que ele quase foi rei, foi quando era mais novo e trabalhou no Rei dos Frangos, mas como ele não era o dono, nem tinha frangos, não pôde ser o rei de coisa nenhuma. Já a minha mãe não pode ser rainha porque o penteado dela não a deixa usar coroa. Assim, a única hipótese é a minha mana ser uma princesa porque é muito bonita. E é verdade.

A única altura em que a minha mana é um pouquinho feia é quando chora. Ela berra tão alto que no outro dia o vizinho Antunes saiu à rua a gritar «eles vêm aí!». O vizinho Antunes foi um soldado numa guerra lá muito longe e que aconteceu há muito tempo. Cada vez que ele ouve uma sirene, sai para a rua a gritar que eles vêm aí. No outro dia bem estive à espera que eles viessem, mas eles não vieram. Eu também não sei quem eles são, por isso não sei se devo esperar muito ou pouco. Se calhar, são pessoas que se atrasam muito, e eu não tenho paciência para esperar por atrasados.

A minha mana é também um pouquinho badalhoca, porque faz cocó na fralda e fica ali quieta. Só quando passa um bocado é que ela começa a refilar e a avisar que está suja. O meu avô também usa fralda, mas ele quando faz cocó refila logo. Normalmente diz porra que já obrei. Obrar é trabalhar nas obras, por isso o meu avô mente. Ele só trabalhou no campo e foi jardineiro quando veio para a cidade, por isso nunca trabalhou nas obras.

A minha mana por vezes também dá uns puns bem altos, mas nunca pede desculpa. Eu no outro dia também dei um pum no hipermercado, que toda a gente ficou a olhar, e tive logo que pedir desculpa, senão levava um tabefe. Acho que a minha mana está livre de pedir desculpa porque é uma princesa, e as princesas nunca têm que pedir desculpa quando dão puns, a não ser que cheirem muito mal. Se cheirarem mal, as princesas têm que pedir desculpa, ir a Fátima e dar beijinhos aos pobres.

A minha mana é muito bonita e eu gosto muito dela. Se alguém disser que a minha mana é feia, leva logo uma cabeçada minha e outra do vizinho Antunes. Viva a minha mana!

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Sobre os irmãos

Os irmãos são os miúdos que têm os mesmos pais que nós, e também os mesmos avós, tias e tios. São assim quase como nós, mas não são nós. Diz-se irmãos e não irmões, porque irmões é muito parecido com limões, e como os limões são azedos e os irmãos são docinhos, não se pode dizer irmões.

Os irmãos uns dos outros vivem sempre na mesma casa e partilham os brinquedos, a não ser que um seja menino e o outro menina, porque aí partilhar os brinquedos era esquisito e estranho.

Normalmente existe sempre um irmão mais velho e um irmão mais novo, a não ser que sejam gémeos. Os gémeos são aqueles que nascem ao mesmo tempo e têm a cara igual, o que deve ser uma chatice porque os estão sempre a confundir, mas também deve ser bom para pregar partidas e ganhar as corridas na escola. O irmão mais velho é sempre aquele que manda e diz o que se deve fazer. É também aquele que protege o irmão mais novo de levar porrada. Eu gostava de ser o irmão mais velho e estou sempre a dizê-lo aos meus pais. Não sei se eles me ouviram, mas a verdade é que vou ter um irmão mais novo. A minha mãe diz que está grávida e que por causa disso anda sempre enjoada. Eu acho que ela enjoa porque andar a comer porcarias, a beber batidos e depois deita-se logo a dormir muito ferradinha.

Estou muito contente por ser o irmão mais velho. Vou tomar conta do bebé e emprestar-lhe os meus brinquedos, menos os camiões amarelos porque esses são muito bonitos e ele depois ainda os estragava com a boca.

Quando ele nascer eu vou ensinar-lhe quase tudo o que sei. Só não ensino tudo porque depois ele ainda ficava a saber mais do que eu, e tornava-se ele no irmão mais velho. Viva o meu irmão.

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Sobre os amigos

Os amigos são as pessoas de quem nós gostamos mais, e que gostam também de nós. Mas, não podem ser da nossa família porque esses não são amigos, são os familiares.

Eu gosto dos meus amigos porque com eles posso fazer coisas que os meus familiares não deixam, como chapinhar nas poças de água com as galochas e cuspir para o ar.

Os amigos são quase como as namoradas e os namorados. Só não são iguais porque com eles não se dão beijinhos na boca, não se anda de mão dada e não se fazem desenhos para oferecer.

Eu tenho muitos amigos porque muitas pessoas gostam de mim. O Tó do Talho é meu amigo porque oferece-me gomas quando me encontra no café. Quando ele não está lá, vou ao trabalho dele pedir-lhe.

Eu tenho amigos meninas e amigos meninos. Os meninos chamam-se sempre de companheiros ou de malta. As meninas são o que se chama de amigos do peito, porque quando elas crescerem vão ter maminhas como as mulheres.

O meu pai diz também que existem os amigos da onça. A onça é um animal parecido com o leopardo, por isso ser amigo da onça é gostar muito de animais.

O melhor amigo é aquele que divide as gomas connosco; o só amigo é o que nos dá uma goma e come duas; e o que come todas as gomas sem nos dar nenhuma é o familiar, como o meu primo Rogério. O meu pai também come as gomas todas e diz que é para eu não estragar os dentes. Não percebo como é que uma goma, que é mole, consegue estragar o dente, que é uma coisa tão dura. A minha mãe diz que é por causa do açúcar, mas eu também já experimentei comer açúcar e não foi por isso que parti os dentes.

O contrário de amigo é o inimigo. Nos filmes os inimigos têm um bigode, vestem-se todinhos de preto e fumam uns cigarros. Eu não tenho inimigos porque nenhuma das pessoas que conheço faz isso.

Viva os meus amigos e viva eu porque sou amigo deles. Viva!

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Sobre as bichas

As bichas são muitas pessoas umas a seguir às outras à espera que aconteça alguma coisa. Existem bichas por todo o lado. Existem na paragem do autocarro, nos guichês dos correios, para comprar roupa de mulher, nas casas de banho das senhoras e nos bancos.

O meu pai diz que as bichas estão na moda, por isso acho que antes era tudo ao molho, o que era uma confusão. Ouvi o meu pai dizer que quando está tudo ao molho se chama de orgia, por isso antes das bichas era só orgias, o que era chato.

Fazer bicha é metermo-nos atrás de outra pessoa e esperar um bocado. Se estivermos ao lado já não é bicha, é fazer companhia.

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