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Sobre as prendas

Prendas é a mesma coisa que presentes, mas como isso é o que também se diz quando a professora chama o nosso nome, inventou-se a palavra prendas.

Prendas é aquilo que se dá nos aniversários, nos anos, no Natal, na Páscoa e quando se quiser, por isso podia-se dar o ano todo que ninguém se importava.

Pode dar-se prendas a todo o tipo de pessoas, mas às más dão-se sempre umas prendas fraquitas. Também se podem dar prendas aos cães, mas nesse caso não se utiliza papel de embrulho porque eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada.

O papel com que se embrulham as prendas pode ser de muitas cores e com desenhos, ou só de uma cor e muito tristes. Nos centros comerciais há sempre uma bancada com raparigas a embrulhar prendas. As pessoas vão lá porque não têm jeito para embrulhar, mas só para desembrulhar. Eu também tenho mais jeito para o desembrulho do que para o embrulho.

Eu gosto de prendas porque é bom rasgar o papel. No outro dia experimentei rasgar o jornal ao meu pai, mas a sensação não foi nada boa, e até foi dolorosa. É que o meu pai ainda não tinha lido o jornal todo e, por isso, levei dois tabefes. Ler o jornal todo é uma chatice e demora tempo. Por isso, às vezes só se lêem as palavras principais, que se chamam de gordas porque ocupam muito espaço. Nos jornais há também palavras magras, que são as mais pequenas. O meu pai diz que num papel que se chama de contrato existe outro tipo de palavras. Essas chamam-se de miúdas, e devem ser filhas das magras porque são muito pequeninas e difíceis de ler. O meu pai diz que é preciso reparar sempre nas miúdas para sabermos o que assinamos. Eu, por outro lado, reparo sempre nas miúdas porque gosto de raparigas.

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Sobre o meu prato preferido

O meu prato preferido é o da sopa porque dá para levar mais comida, e até fazer pirâmides maiores do que nos outros pratos. A única coisa chata desse prato é que é muitas vezes utilizado para comer sopa, comida da qual não gosto. Na verdade, a sopa não deveria chamar-se de comida porque não se come, nem é bebida porque não se pode beber. Não se bebe porque tem pedaços de couve que ficam presos na garganta do esófago, e depois ficamos sem ar, roxos, e é preciso vomitar uma coisa verde para respirar outra vez.

As minhas comidas preferidas são muitas, mas a melhor de todas é o bife com batatas fritas. Às vezes também como um ovo de cavalo no bife. Os ovos de cavalo são pequenos, e até parecem ovos de galinha. O cavalo, tão grande, ter um ovo tão pequenino é para mim um mistério tão grande como a tal montanha que partiu um rato. Porque é que a montanha partiu o coitado do bichinho? Não sei, mas quando perguntei ao meu pai ele riu-se, por isso deve ser uma piada que não percebo.

A comida preferida não se pode comer todos os dias, porque senão acabavam as vacas e as batatas no mundo. Eu não quero que acabem as vacas, até porque gosto de leite com chocolate, e por isso não como o preferido todos os dias. Outra razão para não o fazer é que é a minha mãe que faz a comida, e ela é que decide. O meu pai também decide, mas é muito pouco.

Quando eu for maior e tiver uma casa só vou ter pratos de sopa. Como quero ter muitos, é melhor começar já a juntá-los. No outro dia, no restaurante do Zé Calisto, meti o prato de sopa da minha mãe na mala dela, para depois em casa eu ficar com ele. Mas, depois, ela descobriu e não gostou nada, porque o prato ainda tinha um pouco de legumes e sujou o telemóvel, a carta de condução, os lenços de papel, os recibos das compras, as coisas com que ela pinta a cara, a garrafa de água e as moedas que estavam espalhadas. Disto tudo o telemóvel foi o que sofreu mais, porque apesar de o termos secado com o secador, ele agora só dá o mesmo toque de cada vez que alguém liga. O toque é uma música dos Bom Jovem, uma banda de que a minha mãe gostava, mas da qual tem vergonha agora. Eu também teria vergonha de gostar de uma banda em que as pessoas têm cabelo esquisito, mas a minha mãe diz que era jovem e cometeu erros. Eu sou jovem e também faço erros, mas depois apago-os com uma borracha que me deu a minha tia Alcerina.

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Sobre o presépio

O presépio é uma data de bonecos de barro que se põem ao pé da árvore de Natal, para poder explicar às pessoas que não conhecem, ou são burras, o que aconteceu no dia de Natal de há muitos anos atrás. Aconteceu que nasceu Jesus, e é isso que se mostra.

No presépio existe uma cabana onde o Jesus fica estendido e deitado nas palhas. Nessa cabana está sempre um burro e uma vaca, porque se fossem aves, como patos ou canários, o Jesus podia apanhar a gripe das aves. Na cabana está também o pai de Jesus, que afinal não é o pai verdadeiro mas emprestado sem juros, e a mãe, que se chama Maria e por isso acho que deveria ser portuguesa. A mãe de Jesus teve-o porque um anjo disse para ela ficar grávida. Ela, como acreditava em tudo o que lhe diziam, engravidou.

No presépio há sempre outras figuras, como os Reis Magos. Eles também deveriam ser portugueses, porque acontece que viram uma luz lá longe e foram ver o que era, só mesmo para ver.

Existem sempre um pastor com ovelhas no presépio e um moinho sem farinha. Há também um espelho colocado no chão para fazer de lago. Se não houver espelho o presépio é mau, porque depois os bonecos dos cisnes não ficam bem em lado nenhum.

Para fazer o chão do presépio é preciso musgo, que é uma coisa verde, parecida com relva mas mais pequena, e que cresce agarrada às árvores e nas terras mais húmidas. Nós também temos humidade na nossa casa, mas não cresce nenhum musgo. A única coisa que aparece são umas bolinhas pretas, que o meu pai diz que se chama de bolor, mas não tem nada a ver com bolos. O meu pai também diz que a humidade faz a força e depois ri-se, mas eu não acho piada.

No presépio podemos brincar com todos os bonecos menos o Jesus. Não podemos brincar com ele porque está colado ao berço e às palhas, e depois fica estranho andar com o boneco de um lado para o outro, como se fosse uma pessoa gorda que ficou presa na cadeira.

Não se podem colocar outros bonecos no presépio, como os Plaimóbil ou o AcxionMan. Os Plaimóbil não se podem colocar porque eu não tenho nenhuns, e o AcxionMan é muito grande e parece um gigante. Um gigante é uma pessoa que chega sempre à última prateleira do armário da cozinha, e que muda as lâmpadas sem precisar de cadeira ou escadote. No presépio não há gigantes porque no tempo do Jesus eram todos baixinhos. Isso acontecia porque eles não comiam a sopa. Eu não gosto de sopa, mas como-a toda porque quero mudar lâmpadas sem cadeira ou escadote.

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Sobre o dinheiro

O dinheiro é aquilo que se utiliza para comprar as compras. Também se podem utilizar cheques ou o cartão de multibanco, mas é tudo a mesma coisa porque vale tudo dinheiro. Só não valem dinheiro os cheques carecas, que se chamam assim porque só os senhores que não têm cabelo é que os escrevem. Como estes senhores não têm dinheiro para fazer tratamentos, nem para comprar perucas, também não têm dinheiro para escrever cheques. Para escrever cheques é preciso saber contar e escrever até 900 por extenso, ou seja, novecentos. Eu posso escrever cheques, mas não valem nada porque eu não tenho dinheiro. Podia ser pior, porque eu podia ser careca e isso não dava jeito.

O multibanco é o cartão que se põe nas máquinas para dar dinheiro, mas só saem notas quando se tem um saldo positivo, e para isso acontecer é preciso trabalhar muito. O meu pai diz que algumas pessoas têm muito dinheiro e não trabalham nada. Eles chamam-se de sortudos, ricos, betos, senhorios ou rabos-virados-para-a-lua.

No Natal e nas férias é quando se gasta mais dinheiro. Isto acontece porque os chefes dão um subsídio, que é ainda mais dinheiro, para ajudar a economia. A economia é uma coisa complicada, mas eu sei que tem a ver com dinheiro e com outra coisa chamada fraude fiscal. A fraude fiscal é uma coisa má, que acontece muitas vezes, mas ninguém vai preso porque não é nada parecido com roubar turistas ou velhotes. Para fazer fraude fiscal é preciso ter um fato de marca, e é preciso falar muito e não dizer nada.

O nosso dinheiro chama-se de Euro porque nós vivemos na Europa. Se vivêssemos na América o dinheiro chamava-se de Américo.

O sítio onde se guarda dinheiro é o banco. Às vezes, uns senhores vão roubar o banco para ter dinheiro para comprar carros, telemóveis, computadores e sapatos de marca. Isso é chamado de assaltar o banco. Acho que o nome é errado porque eu, no outro dia, saltei por cima do banco da cozinha e não ganhei nenhum sapato de marca. Eu até nem gosto de sapatos, mas podia ser que desse para trocar por uns ténis da Riboque, Naique ou Adias.

Eu gostava de ser rico e ter dinheiro para tudo. Se não puder ser, então quero Plaissetaixon e gomas. Obrigado.

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Sobre as motas

As motas têm duas rodas como as bicicletas, mas são maiores, é preciso usar capacete e não têm pedais. Elas têm um motor, e por isso é que se chamam de motas. Se tivessem pedais, e fosse preciso usar capacete, chamavam-se de pedalotas.

O meu pai está agora a estudar para poder conduzir uma mota. É preciso estudar porque as motas são muito diferentes dos carros, até porque os carros têm limpa pára-brisas, vidros eléctricos, sófagem, ar-condicionado e porta-luvas. As motas não têm nada disso, e já é uma sorte elas terem uma buzina.

O verdadeiro nome das motas é motociclo. Elas chamam-se assim porque existem muitas à porta da escola do Ciclo perto do meu colégio. Se existissem muitas motas às portas das universidade, elas chamavam-se de motonidades, nome que era feio e parvo.

Existem várias pessoas que conduzem motas. Uns são os motardes, que são sempre muito limpinhos, muito certinhos e que nunca aceleram. Os outros são os motoqueiros, e estes são muito maus. Costumam utilizar blusões de cabedal, que fazem muito barulho a mexer, e usam barba grande e cabelo por lavar. Aceleram sempre muito, fazem estragos e cospem para o chão. Por isso é que as pessoas não gostam deles. Eu gostava que o meu pai fosse um motarde. Se ele se tornar um motoqueiro tenho pena, até porque a minha mãe diz que ele fica mal com a barba grande.

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Sobre o café

O café é uma bebida preta e às vezes castanha que se bebe quente e com açúcar. Só os adultos é que podem beber. A mim não me deixam porque dizem que fico eléctrico e eu também não quero. Uma vez, quando era mais pequeno, enfiei os dedos na tomada da televisão e fiquei eléctrico. Não gostei nada.

A minha mãe diz que à noite não pode beber café, por isso pede um descafeinado. O descafeinado é a mesma coisa que o café só que sem a cafeína, que é um bichinho que vive nos grãos e que nunca pára quieto, por isso quando se bebe cafeína as pessoas correm como se fossem malucas porque os bichinhos as obrigam. O descafeinado é muito mais caro porque tem que se partir todos os grãos do café e tirar o bicho lá de dentro.

Os cafés bebem-se num sítio que também se chama de café, onde se podem beber sumos, comer gelados, bolos e gomas, e ver a SporeTV. Eu às vezes vou com o meu pai ao café ver a SporeTV porque nós não temos em casa. O meu pai diz que é muito caro e que os senhores da TV Cabo são uma cambada de ladrões. Quando o senhor da TV Cabo bate à porta em casa, eu vou logo a correr buscar o meu tractor, que é todinho em ferro, para atirar na cabeça dos ladrões. A minha mãe quando abre a porta aos senhores da TV Cabo diz sempre para eles terem cuidado com a criança. Quando é o meu pai, ele diz-me sempre atira filho atira e o senhor foge logo.

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Sobre o rádio

O rádio é um aparelho que se chama de electrónico porque funciona com electricidade. Também os há a pilhas, mas não se chama de pilhónicos. Chamam-se de portáteis.

O rádio dá músicas, missas, notícias, anedotas, trânsito, programas, concursos e passatempos. Só não dá filmes porque se desse não era um rádio, era uma televisão ou cinema.

O rádio dá todas aquelas coisas porque tem uma antena especial que apanha ondas. Estas ondas não são como as da praia porque são umas ondas secas que viajam no ar e ninguém vê.

As pessoas que falam nos rádios trabalham nas emissoras. As emissoras são as empresas que estão no último andar dos prédios porque lá de cima é que se consegue atirar melhor. Quanto mais alto for o prédio, mais longe vão as ondas.

Os senhores que trabalham nas emissoras chamam-se de radioafónicos porque passam o dia a falar muito e depois ficam sem voz. O afónico é uma pessoa que fala, fala, fala, fala, fala, fala e depois tem que estar muito caladinho porque gastou a garganta toda.

O carro do meu pai tem um rádio com leitor de cêdês. O cêdê é uma bolacha prateada com um buraco no meio mas não se pode comer, senão fica riscado e já não dá música. O meu pai só ouve a rádio das notícias que é para saber o que se passa no nosso país, que é o Portugal Heróis do Mar, e no estrangeiro, que é a mesma coisa que dizer lá fora.

O meu pai é muito curioso e diz que devora notícias, por isso acho que é ele que risca os cêdês quando tem fome de notícias. Ele também só ouve o rádio para saber como está o trânsito. Se estiver engarrafado ele vai por outro sítio, porque o meu pai não gosta de beber da garrafa. Ele bebe a partir do copo mas eu nunca ouvi dizer que o trânsito estava encopado, porque se estivesse ele ia por lá quase de certeza.

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