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Arquivo para a categoria 'Isto é diferente e não encaixa noutra'

Sobre a Internet

A Internet são uma data de computadores todos ligados com fios e sem fios, em que todos falam uns com os outros para podermos ver os sáites e o meu pai poder entregar o IRS. O IRS são umas letras que querem dizer Imposto Realmente Stúpido. Não se diz Estúpido porque senão o imposto chamava-se IRE, que é como os burros e incultos escrevem a palavra ir.

A Internet também se chama de net, que é o diminuitivo. Já o diminuitivo de net é netinha, que é como o meu avô Joaquim chama a minha prima. O meu avô está enganado porque a minha prima não tem nada a ver com a net. A net é interessante, enquanto que a minha prima é mariquinhas e só brinca com talheres e pratos de plástico.

A Internet quando apareceu foi na América já há muitos anos, mas mesmo assim os americanos continuam muito parvos e taralhoucos. A net veio para Portugal só depois do 25 de Abril, porque era como a Coca-Cola e não se podia ver, nem beber. A net não se bebe, mas dá para ver a Coca-Cola. A net chegou cá nos contentores de um navio e depois foi distribuída pelo país num dia em que os camionistas não fizeram greve.

A net inventou uma data de palavras novas porque as coisas que apareciam eram muitas e não havia nomes para todas. Apareceram palavras como dáuniló, sáite e belogues, que é aquilo que eu tenho aqui para todos verem. Se não se tivessem inventado esses nomes, se calhar chamava-se o dáuniló de espátula, o sáite de grande-penalidade e o belogue de jacinto, o que era uma grande confusão. Além do mais, o Jacinto, que mora no sexto esquerdo, dá muitos erros a escrever, e por isso era injusto dar o nome dele aos belogues. Assim, para não haver confusões nem gritarias, não se podem repetir palavras. O único sítio onde se pode repetir é no casamento, num rap ou no eco, mas aí a culpa já não é nossa.

A net é também a palavra que, em inglês estrangeiro, quer dizer rede. Isto é um pouco estúpido, porque o meu avô quando vai à net diz que não pesca nada, por isso net não pode ser uma rede.

Eu estive uns dias sem Internet e já estava a ficar maluquito porque não podia escrever aqui nem ler as notícias da bola. As outras notícias podia ler porque o meu pai compra o jornal e ainda aceita todos os jornais gratuitos que lhe dão. Eles diz que ler faz bem e eu já vi. Ele sai sempre aliviado da casa-de-banho quando vai para lá ler durante muito tempo. O chato é o cheiro que fica depois. Eu quando leio não cheiro mal, mas isso deve ser porque eu ainda leio pouco ou não o faço bem.

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Sobre os signos

Os signos são animais e objectos que dizem o que nos vai acontecer na vida e também no dia-a-dia. Não dizem o que vai acontecer à noite porque eles não conseguem ver no escuro.

Os signos estão espalhados pelos meses do ano, sem jeito e sentido nenhum, e por isso é preciso ter um calendário de bolso para saber qual é o signo do dia em que nascemos no mundo. Há também calendários de parede, mas esses não dá para termos na carteira porque têm imagens de senhoras nuas e perdizes mortas.

Os signos são vários e todos diferentes uns dos outros. Não são todos diferentes, todos iguais. São mesmo todos muito diferentes e nada parecidos. Eu não sei o que cada um deles quer dizer, mas sei o nome de alguns. São o touro, os peixes, os gémeos Cláudio e Carolina, o leão, o homem-cavalo, o caranguejo, a sapateira, o carneiro, o cabricórnio, a balança, o fia-te na virgem e não corras , o aquário e as árvores de fruto.

O único signo que eu conheço mais ou menos é o meu, que é o touro. O touro é aquela pessoa que é teimosa e gosta de vacas. Eu sou assim, por isso tive sorte no signo que me calhou. Se eu gostasse de carneiras já não podia ser touro e tinha que ser outra coisa. Mas assim é que eu gosto.

Existem pessoas que sabem o que vai acontecer às pessoas por causa dos signos. Elas chamam-se de evidentes ou signólogos. O meu pai também os chama de aldrabões e chulos, mas ele chama os árbitros da mesma forma, por isso não sei se os nomes estão certos ou verdadeiros.

Com excepção da sapateira, que vive no restaurante do Zé Algarvio, todos os signos vivem nas estrelas. Se um dia forem viajar de avião e virem um touro a pastar nas nuvens, digam-lhe olá e muuu, porque esse é o meu signo. Se virem uma balança não digam nada, porque as balanças normais não falam. Só as da farmácia é que falam alguma coisa, e mesmo assim é só para dizer o peso e o nível de castrol no sangue.

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Sobre o silêncio

O silêncio é quando não se faz barulho nenhum, e nem sequer se ouvem as moscas ou os puns.

O silêncio é preciso para fazer algumas coisas. Para fazer testes na escola é preciso silêncio, porque senão era uma balbúrdia e ninguém conseguia lembrar-se do que tinha estudado. Quando há balbúrdia é difícil lembrar-mo-nos das coisas, por isso o meu avô deve ter uma grande balbúrdia na cabeça. Ele no outro dia nem sequer se lembrava onde tinha metido a garrafa de vinho do Porto, até que o meu pai a descobriu dentro do autoclismo. O meu pai não explicou o que tinha ido fazer ao autoclismo do meu avô, e também ninguém perguntou. Acho que todos tinham medo que ele tivesse metido as mãos na água no autoclismo. Ele diz que a água que lá está ainda é limpinha, mas eu acho difícil de acreditar porque quando carrego no botão do autoclismo cá de casa a água que sai é de um azul adulto. O outro azul, mais clarinho, é o azul bebé.

O silêncio também se costuma fazer nos espectáculos e nos tribunais, que são quase a mesma coisa só que nos espectáculos há mais polícias.

Costuma dizer-se que o silêncio é de ouro porque nos sítios onde se vende ouro é preciso estar calado. O sítio onde se vende ouro chama-se de Ouraria, que juntamente com Alfama, Picheleira, Chelas, Rua Augusta e Terreiro do Paço são os bairros típicos de Lisboa. Há outros bairros, mas esses têm polícias e não há lixo na rua, e por isso não são típicos. Nas Ourarias temos que fazer silêncio para as pessoas pensarem muito bem se querem gastar aquele dinheiro num colar, brincos, anéis, pulseiras, ou então ir gastar tudo em gomas para os filhos. Eu já disse ao meu pai para ele fazer isso, e comprar um camião cheio de gomas, mas ele diz que não tem dinheiro nem para mandar cantar um cego. Eu nunca vi um cego a cantar, mas isso deve ser porque estamos em crise e ninguém lhe dá dinheiro. Crise é quando toda a gente se queixa que não tem dinheiro e depois, no hipermercado, compram tudo da marca branca.

Outra das frases que se costuma dizer é que temos que fazer o silêncio porque as paredes têm ouvidos. Acho isto um pouco estranho mas, como a rua tem um olho para onde vão as pessoas despedidas, já nada me admira.

Silêncio é também o que é preciso haver para existir o barulho, porque senão o barulho era o normal e nós nunca sabíamos a quantas andávamos. Eu às vezes ando a 20, mas depois corro e ando mais depressa, só que depois não sei a quanto ando porque não consigo contar.

Isto de falar do silêncio é complicado e difícil, por isso vou fazer o silêncio e calar-me. Chiu.

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Sobre a mentira

A mentira é uma coisa que se conta e que não é verdade, a não ser que se conte a mentira muitas vezes e depois passa a ser a verdade, enquanto que a verdade é que passa a ser a mentira.

A mentira pode ser contada por brincadeira ou, então, por maldade. Se for por maldade é muito feio, mas se for por brincadeira é divertido e chama-se de pregar uma partida. Eu acho muito bem que se preguem as coisas partidas, para ver se assim elas ficam arranjadas.

As pessoas que dizem mentiras são chamadas de mentirosas, políticos ou dirigentes do desporto.

O Pinóquio também mentia, e quando o fazia crescia-lhe o nariz. Isso só acontecia porque ele era feito de madeira. Eu quando minto é só por brincadeira e não me cresce o nariz porque não sou feito de pau. Se fosse era uma chatice, porque depois tinha que pôr cremes no corpo todo por causa do bicho da madeira. O bicho da madeira é um bichinho pequenino, ainda mais pequeno que uma formiga, mas que tem uns dentes muito grandes e que come madeira, o que deve fazer muito mal à barriga. As pessoas não comem madeira porque é muito dura e pode-se partir um dente.

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Sobre a meteorologia

Meteorologia é uma palavra nova que aprendi ontem. Fazer a meteorologia é conseguir adivinhar o tempo que vai fazer amanhã e até nos dias a seguir. Quem faz a meteorologia são os meteorologistas, ou senhores do tempo, que são como os adivinhos que aparecem nos jornais. A maior parte dos meteorologistas são zarolhos, porque o meu pai diz que eles não acertam uma.

Para ser meteorologista é preciso estudar muito numa escola especial. Nessa escola eles têm aulas com muitos professores e também com a Maya, que é uma adivinha que aparece na televisão. Ela ajuda-os a adivinhar o tempo que aí vem e se a chuva é muita ou fraquinha.

O nome da Maya escreve-se com uma letra estrangeira que é o Y. Esta letra chama-se de ipesilón, e é como um se fosse um i grande a quem um lenhador deu uma machadada, mas como era fraquinho só o conseguiu rachar até ao meio.

O tempo que faz para os dias a seguir pode chamar-se de muito sol, mais ou menos sol, poucochinho sol, pouco nubelado com abertas, pouco nubelado sem abertas nenhumas, muito nubelado, chuviscos, chuva molha-parvos, chuva a sério, trovões, tempestade, frente fria e anticiclone dos Açores.

Na meteorologia adivinha-se também como vai estar o mar por causa dos pescadores, dos surfistas e dos navegadores dos Descobrimentos. Uma vez ouvi um senhor dizer que o mar ia estar encrespado e com vacas de dois metros. Fui ao mar e não vi o senhor Crespo, que tem o minimercado ao pé da minha casa, nem nenhuma vaca, quanto mais com dois metros.

Os senhores do tempo também adivinham quanto vento vai estar amanhã, que é para se saber se se põe muita ou pouca laca no cabelo.

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Sobre as profissões

As profissões são coisas que os adultos fazem quando não têm tempos livres. Nos tempos livres pode-se fazer tudo, mas na profissão só se pode fazer uma coisa de cada vez.

A profissão pode chamar-se também de emprego, trabalho, castigo ou tacho. O meu pai diz que o tacho é a profissão dos senhores que coçam a micose. Eu não sei o que é a micose. O meu pai diz também que o tacho é que é bom, mas eu não acho porque a minha mãe faz sempre o peixe cozido no tacho e eu não gosto de peixe.

A profissão do meu pai é fazer pontas de corno. Um dia fui ao trabalho dele e quando ele vinha embora disse adeus colegas que eu hoje não faço nem mais a ponta de um corno.

Eu conheço muitas profissões, mas agora só me lembro de poucas. Existe o agricultivador, que faz crescer os legumes e os porcos; o serralheiro, que faz a serradura; o ensinador, que também se chama de professor; o revisor, que também se chama de pica porque anda sempre com uma agulha; os dótoures, que curam as doenças que doem; os fazedores de pontas de corno, como o meu pai; e os chulos, que a minha mãe diz que fazem churros e farturas nas feiras lá da terra dela.

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Sobre os transportes

Os transportes são máquinas e carros que nos levam para o trabalho, o colégio e para a praia quando faz calor. Só não nos ajudam a ir às compras porque não param no Jumbo de Alfragide.

Para andar de transportes é preciso ter um passe chamado ÉLE133. Para o passe funcionar tem que se comprar um autocolante chamado de selo mas não se compra nos correios nem se envia uma carta.

Os transportes que servem para toda a gente são chamados de transportes púbicos. Existem comboios púbicos, autocarros púbicos, táxis púbicos e barcos púbicos. No outro dia ouvi o meu pai dizer que também havia um transporte que era o pêlos púbicos. Eu nunca andei mas acho que vou andar num pêlo púbico quando for mais crescido.

O meu transporte preferido é o táxi e o comboio. Gosto do táxi porque nele oiço muitas vezes um grupo de música que a minha mãe chama de os Quim Barreiros. Gosto do comboio porque é parecido com uma lagarta só que é muito maior, é de ferro, tem bancos, revisores, rodas, botões e ar-condicionado. Se não fossem estas coisas era tal e qual uma lagarta, por isso é só parecido.

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