Archive from Fevereiro, 2012

Sobre a escola

A escola é um sítio onde as crianças vão para aprender que o D. Afonso e o Henrique foram os primeiros presidentes de Portugal. Os senhores que entregam as bilhas de gás cá em casa também se chamam Afonso e Henrique, por isso acho que foram eles que começaram o país, até porque são os dois um pouco velhotes e cheiram aquilo a que a casa da minha avó cheira. 

Na escola é a professora que explica as coisas e dá raspanetes a quem não faz desenhos bonitos. Ela também dá raspanetes a quem dá cabeçadas e pontapés aos colegas, mesmo que os colegas mereçam porque estão a ser estúpidos, infantis e parecem crianças.

A professora falta muitas vezes porque vai protestar no ministério a favor das propinas. As propinas é o que os professores recebem no fim do mês, por isso eles querem sempre mais enquanto os estudantes querem pagar menos, para ficarem com dinheiro para as gomas e para cerveja. Eu não gosto de cerveja. Nunca provei, mas não gosto. De certeza.

Os estudantes das escolas dos grandes chamam-se de universitários. As escolas dos grandes chamam-se de faculdades, por isso acho que os alunos tinham de se chamar faculdadários. Eu quando for grande quero ser faculdadário dos computadores porque isso é o futuro e eu quero chegar lá. Quero ter muito dinheiro para gastar em brinquedos e para dar prendas às minhas namoradas.

Tenho quatro namoradas e gosto de todas. A Catarina, a Iva, a Maria e a Patrícia. Quando for faculdadário vou namorar com outras e ser um domjoão. O meu pai diz que um domjoão é um homem que namora com muitas meninas. Eu quero ser um domjoão porque o meu pai diz que foi um também, mas que depois encontrou a minha mãe e ela disse que não senhor, nada disso e toca a ter juízo. Eu gosto muito da escola.

Fev 27, 2012 - Pessoas e afins    Sem comentários

Sobre os animais de companhia

Os animais de companhia são animais que fazem companhia. Fazer companhia é estar ao lado das pessoas e abanar a cauda a dizer «sim, senhor, gosto e leva-me a fazer xi-xi à rua». Há outros animais que também estão perto das pessoas, mas como são as pulgas e piolhos, não são de companhia, mas sim animais que aleijam a pele e dão comichão. Como eles estão em cima das pessoas chamam-se animais que pisam. Uma vez pisei um gato e ele disse uma asneira, mas não terminou de dizer porque teve vergonha. Eu nunca digo asneiras porque levo sempre um carolo, e como não gosto de carolos, e gosto de abraços, não digo asneiras. A não ser que me pisem. Aí digo quatro ou cinco, mas para dentro.

Os animais de companhia que há mais são os cães, os gatos, os periquitos e os peixes. A minha mãe também traz peixes para casa muitas vezes, mas como já estã mortos, de olhos muito abertos e de boca aberta, não são animais de companhia, mas sim o almoço.

O animal de estimação que eu mais gosto é o cão. Eu gosto do cão porque sim. Não gosto de gatos porque eles lambem-se e vomitam. Se eu me lambesse e andasse a vomitar, também as pessoas não haveriam de gostar de mim, acho eu.

Há animais esquisitos para serem de companhia. O meu amigo Sandro tem um irmão mais velho que tem uma prima que mora lá em cima e que tem uma iguana. As iguanas são lagartos com uma cauda muito comprida e que têm umas unhas que fazem cócegas na cabeça e nos pés. Uma vez a prima do mano do Filipe pôs a iguana dele em cima da minha cabeça e eu não gostei nada. Mas, eu não chorei, só que fiquei com tanto medo que fiz um pouquinho de xi-xi nas cuecas. Eu não lhes disse nada, porque tinha vergonha. Vergonha, diz o meu pai, é roubar e ser apanhado. Eu nunca roubei, mas às vezes, gosto de jogar à apanhada. Especialmente quando a Teresa me apanha. Gosto dela, pronto. E quando ela me apanha dá-me vontade de, de, de, olha, dá-me vontade de dar-lhe umas 20 gomas. Eu acho que ela é bonita e linda e cheira bem a rosas, a chocolate e a sabonete líquido do Lidl.

Sobre os signos

Os signos são animais e objectos que dizem o que nos vai acontecer na vida e também no dia-a-dia. Não dizem o que vai acontecer à noite porque eles não conseguem ver no escuro.

Os signos estão espalhados pelos meses do ano, sem jeito e sentido nenhum, e por isso é preciso ter um calendário de bolso para saber qual é o signo do dia em que nascemos no mundo. Há também calendários de parede, mas esses não dá para termos na carteira porque têm imagens de senhoras nuas e perdizes mortas.

Os signos são vários e todos diferentes uns dos outros. Não são todos diferentes, todos iguais. São mesmo todos muito diferentes e nada parecidos. Eu não sei o que cada um deles quer dizer, mas sei o nome de alguns. São o touro, os peixes, os gémeos Cláudio e Carolina, o leão, o homem-cavalo, o caranguejo, a sapateira, o carneiro, o cabricórnio, a balança, o fia-te na virgem e não corras , o aquário e as árvores de fruto.

O único signo que eu conheço mais ou menos é o meu, que é o touro. O touro é aquela pessoa que é teimosa e gosta de vacas. Eu sou assim, por isso tive sorte no signo que me calhou. Se eu gostasse de carneiras já não podia ser touro e tinha que ser outra coisa. Mas assim é que eu gosto.

Existem pessoas que sabem o que vai acontecer às pessoas por causa dos signos. Elas chamam-se de evidentes ou signólogos. O meu pai também os chama de aldrabões e chulos, mas ele chama os árbitros da mesma forma, por isso não sei se os nomes estão certos ou verdadeiros.

Com excepção da sapateira, que vive no restaurante do Zé Algarvio, todos os signos vivem nas estrelas. Se um dia forem viajar de avião e virem um touro a pastar nas nuvens, digam-lhe olá e muuu, porque esse é o meu signo. Se virem uma balança não digam nada, porque as balanças normais não falam. Só as da farmácia é que falam alguma coisa, e mesmo assim é só para dizer o peso e o nível de castrol no sangue.

Fev 21, 2012 - Pessoas e afins    Sem comentários

Sobre os extra-terrestres

Os extra-terrestres são uma pessoas que não são pessoas porque não vivem em Portugal, e nem sequer no mundo e arredores. Os extra-terrestres são assim coisas que vêm de outros planetas, e só existem nos filmes americanos. Nos filmes da Europa e da França eles não existem, porque esses filmes são sempre sobre coisas para os adultos pensarem muito, e como os extra-terrestres não pensam muito bem, eles não entram nesses filmes.

Eu digo que os extra-terrestres não pensam muito bem porque nos filmes eles perdem sempre para os americanos, e eles já são bastante estúpidos, parvos, gordos e sebentos. Mesmo assim, os americanos têm coisas boas, como os cáubóis, hambrugas com queijo mas sem pimento, e o pato Mickey. Eles têm também outras letras no abecedário que nós não tínhamos, e que antes não faziam falta mas agora fazem para dizer worten, kaspa e ynconstitucionalissimamente, que é uma palavra grande, comprida e que não quer dizer grandes coisa porque tem a ver com a política, e a política, diz o meu pai, é chula e não vale um tostão. O tostão era uma moeda que existia quando o meu pai era pequeno. Agora já não existe porque o meu pai é grande.

Os extra-terrestres podem ser chamados de étês, que é também o nome de um filme antigo em que um senhor anão e pequeno vestia um fato de borracha, castanho com uma ponta vermelha com luz, e fingia telefonar para casa. Ele também dizia que era um extra-terrestre, só que era a fingir porque os extra-terrestres são todos verdes, que é a cor mais horrível e feia para ter na pele.

Ser extra-terrestre é uma chatice porque eles andam em discos voadores que giram muito depressa, e aquilo deve dar dor de cabeça. Além disso, como aquilo gira muito, eles andam sempre tontos e nunca acertam no sítio para onde querem ir. E é por isso que eles nunca chegaram ao nosso planeta e nem sequer a Portugal.

Sobre o meu prato preferido

O meu prato preferido é o da sopa porque dá para levar mais comida, e até fazer pirâmides maiores do que nos outros pratos. A única coisa chata desse prato é que é muitas vezes utilizado para comer sopa, comida da qual não gosto. Na verdade, a sopa não deveria chamar-se de comida porque não se come, nem é bebida porque não se pode beber. Não se bebe porque tem pedaços de couve que ficam presos na garganta do esófago, e depois ficamos sem ar, roxos, e é preciso vomitar uma coisa verde para respirar outra vez.

As minhas comidas preferidas são muitas, mas a melhor de todas é o bife com batatas fritas. Às vezes também como um ovo de cavalo no bife. Os ovos de cavalo são pequenos, e até parecem ovos de galinha. O cavalo, tão grande, ter um ovo tão pequenino é para mim um mistério tão grande como a tal montanha que partiu um rato. Porque é que a montanha partiu o coitado do bichinho? Não sei, mas quando perguntei ao meu pai ele riu-se, por isso deve ser uma piada que não percebo.

A comida preferida não se pode comer todos os dias, porque senão acabavam as vacas e as batatas no mundo. Eu não quero que acabem as vacas, até porque gosto de leite com chocolate, e por isso não como o prato preferido todos os dias. Outra razão para não o fazer é que é a minha mãe que faz a comida, e ela é que decide. O meu pai também decide, mas é muito pouco.

Quando eu for maior e tiver uma casa só vou ter pratos de sopa. Como quero ter muitos, é melhor começar já a juntá-los. No outro dia, no restaurante do Zé Calisto, meti o prato de sopa da minha mãe na mala dela, para depois em casa eu ficar com ele. Mas, depois, ela descobriu e não gostou nada, porque o prato ainda tinha um pouco de legumes e sujou o telemóvel, a carta de condução, os lenços de papel, os recibos das compras, as coisas com que ela pinta a cara, a garrafa de água e as moedas que estavam espalhadas. Disto tudo o telemóvel foi o que sofreu mais, porque apesar de o termos secado com o secador, ele agora só dá o mesmo toque de cada vez que alguém liga. O toque é uma música dos Bom Jovem, uma banda de que a minha mãe gostava, mas da qual tem vergonha agora. Eu também teria vergonha de gostar de uma banda em que as pessoas têm cabelo esquisito, mas a minha mãe diz que era jovem e cometeu erros. Eu sou jovem e também faço erros, mas depois apago-os com uma borracha que me deu a minha tia Alcerina.

Sobre o dinheiro

O dinheiro é aquilo que se utiliza para comprar as compras. Também se podem utilizar cheques ou o cartão de multibanco, mas é tudo a mesma coisa porque vale tudo dinheiro. Só não valem dinheiro os cheques carecas, que se chamam assim porque só os senhores que não têm cabelo é que os escrevem. Como estes senhores não têm dinheiro para fazer tratamentos, nem para comprar perucas, também não têm dinheiro para escrever cheques. Para escrever cheques é preciso saber contar e escrever até 900 por extenso, ou seja, novecentos. Eu posso escrever cheques, mas não valem nada porque eu não tenho dinheiro. Podia ser pior, porque eu podia ser careca e isso não dava jeito.

O multibanco é o cartão que se põe nas máquinas para dar dinheiro, mas só saem notas quando se tem um saldo positivo, e para isso acontecer é preciso trabalhar muito. O meu pai diz que algumas pessoas têm muito dinheiro e não trabalham nada. Eles chamam-se de sortudos, ricos, betos, senhorios ou rabos-virados-para-a-lua.

No Natal e nas férias é quando se gasta mais dinheiro. Isto acontece porque os chefes dão um subsídio, que é ainda mais dinheiro, para ajudar a economia. A economia é uma coisa complicada, mas eu sei que tem a ver com dinheiro e com outra coisa chamada fraude fiscal. A fraude fiscal é uma coisa má, que acontece muitas vezes, mas ninguém vai preso porque não é nada parecido com roubar turistas ou velhotes. Para fazer fraude fiscal é preciso ter um fato de marca, e é preciso falar muito e não dizer nada.

O nosso dinheiro chama-se de Euro porque nós vivemos na Europa. Se vivêssemos na América o dinheiro chamava-se de Américo.

O sítio onde se guarda dinheiro é o banco. Às vezes, uns senhores vão roubar o banco para ter dinheiro para comprar carros, telemóveis, computadores e sapatos de marca. Isso é chamado de assaltar o banco. Acho que o nome é errado porque eu, no outro dia, saltei por cima do banco da cozinha e não ganhei nenhum sapato de marca. Eu até nem gosto de sapatos, mas podia ser que desse para trocar por uns ténis da Riboque, Naique ou Adias.

Eu gostava de ser rico e ter dinheiro para tudo. Se não puder ser, então quero Plaissetaixon e gomas. Obrigado.

Sobre a preguiça

A preguiça é a vontade de não ter vontade de fazer alguma coisa. Se tivermos alguma coisa para fazer, e não nos apetecer mesmo nada, chama-se de preguiça, mas se não tivermos nada para fazer, nem a vontade, chama-se de relaxar.

A preguiça pode dar a qualquer pessoa, a qualquer hora do dia, mas normalmente acontece a seguir ao almoço porque as pessoas bebem cerveja e comem batatas. Se comessem arroz e bebessem sumo isso não lhes acontecia. A cerveja faz muito mal e dá para apanhar a preguiça porque é feita de cereais, e os cereais vêm todos do Alentejo, país onde as pessoas andam muito devagarinho. As batatas fazem mal porque pertencem à família dos ideratos de carbono. Os ideretos estão em várias comidas, mas são sempre uns indecisos, porque tão depressa dão sono como dão energia. Eu como bebo muito sumo nunca tenho preguiça porque estou sempre a levantar-me para ir fazer xi-xi.

O arroz faz muito bem para curar a preguiça porque vem da China, e os senhores da China estão sempre a trabalhar e nem param no Natal, nem fazem greve. A greve é também uma forma de preguiça porque as pessoas que a fazem sabem que têm que ir trabalhar, mas não lhes apetece.

Há também um bicho que se chama de preguiça porque, diz o meu pai, eles são muito lentos. Mas também os caracóis são lentos e não é por isso que se deixam de chamar de caracóis. Eu gosto muito dos caracóis do café aqui ao pé de casa. Não gosto muito das caracoletas porque essas têm muito ranho. As caracoletas largam o ranho para poderem deslizar melhor no cimento. Se não tivessem o ranho raspavam-se todas por baixo e isso era coisa para doer assim um bocadinho.

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