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Sobre os Descobrimentos

Os Descobrimentos foram uma altura muito importante para a história do nosso país, que se chama de Portugal Heróis do Mar. Isso aconteceu há muitos anos atrás, ainda antes de eu ter nascido e até antes da Lili Caneças aparecer.

Nessa altura havia muita gente desempregada e com tempo livre, e por isso decidiram pegar nuns barcos grandes e ir ver se descobriam os Açores, a Madeira e os McDonalds. Eles foram nuns barcos à vela porque era tempo de crise e o gasóleo estava caro. Agora estão a acontecer as mesmas coisas, mas ninguém vai andar de barco pelo mar fora porque estão todos a receber o subsídio de desemprego. Por causa do subsídio têm que ir de 15 em 15 dias à Junta de Freguesia assinar um papel e fazer o pino. E 15 dias não dá para viajar de barco porque só se consegue ir até meio caminho de alguma coisa. Além do mais, os Açores e tudo o resto já foi descoberto, o que é chato porque assim não sobrou nada para nós.

Os reis também queriam que as pessoas fossem descobrir coisas, que era para ver se não andavam na rua a vadiar, coisa que dava mau aspecto e era pior para o turismo e para a segurança. A segurança é poder estar na rua a jogar à bola sem medo de nada, a não ser dos carros, das motas, dos táxis, dos cães, dos pombos, dos autocarros e dos trambolhões. Quem faz a segurança são os polícias, que agora são mais magros e com menos bigode que na altura em que o meu pai jogava à bola. Quem não faz a segurança são os ladrões, gatunos ou árbitros.

Nos Descobrimentos as pessoas iam nos barcos sempre em frente e só paravam quando encontravam terra. Se encontrassem terra nos sapatos não valia, e era só sinal que não tinham limpo os pés antes de embarcar nos barcos. O meu pai diz que o meu tio também gosta de embarcar, mas ele é mais com os uisquéis.

Nos barcos eles tinham que levar muita carne para comer, para não enjoarem do peixe que apanhavam. O chato era que tinha que ser tudo comido cru. Como os barcos eram feitos de madeira, era muito perigoso fazer lume para assar umas sardinhas. Comer peixe cru é agora uma coisa boa e chique e é da moda, e chama-se suxi. Na altura dos Descobrimentos comer peixe cru era chato, porque ninguém sabia que era uma coisa boa e chique e da moda.

Nos Descobrimentos foram descobertas muitas terras, florestas, rios, animais e plantas. Só o céu é que era sempre o mesmo, com o mesmo sol e com as mesmas estrelas.

Se durante aquela altura não se tivessem encontrado muitas coisas, não se chamava de Descobrimentos, mas sim do contrário, ou seja, Cobrimentos.

Os Descobrimentos foram a única altura em que o nosso país foi importante. Agora não somos porque, diz o meu pai, estamos na cauda da Europa. A cauda é a parte mais suja dos cães por causa do cocó. Se calhar é por isso que há por aqui tanto cocó de cão nas ruas: é porque somos a cauda da Europa. Eu não gosto de estar na cauda da Europa, e um dia vou-me mudar para o Algarve, sítio do estrangeiro onde se fala inglês marafado.

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3 respostas to “Sobre os Descobrimentos”

  1. on 28 Fev 2008 at 7:37 amo próprio

    texto algo longo para um bloque, mas muito bom! Por ora vai para os favoritos. Depois, logo se vê…

    http://www.cresceiemultiplicai-vos.blogspot.com/

  2. on 10 Mar 2008 at 5:01 pmgato escaldado

    Mais uma vez a inevitabilidade das coisas… há aqui linhas neste texto que só mesmo quem te conhece consegue reconhecer. Porque é que por muito que tentemos não conseguimos deixar o nosso eu completamente de fora do que escrevemos? Será que é isso que faz de nós únicos e especiais para quem nos conhece?

  3. on 24 Abr 2008 at 2:08 amartista

    Olá puto!
    Caí aqui por acaso. Muito querido o seu blog! Logo pensei que a pessoa por trás destes “postes” fosse muito interessante e corri ao “sobre mim” mas não achei nada…
    E não ligues ao que o próprio disse, o texto não é muito grande. Não existe essa de “um blog é isso” “um blog é aquilo”. Um blog pode ser o que se quiser. As possibilidades são ilimitadas. Odeio preconceitos. Fui à página dele (do próprio) para descobrir o motivo desse preconceito. Não vou falar que precisei usar a minha lupa, mas que tive preguiça de tirá-la do bolso. Bom é que o mundo não seja feito nem só de preto e nem só de branco, mas de blogs com artigos pequenos e outros com artigos gigantes!
    Quando eu era criança eu era a menina dos porquês. Se eu fosse a fazer um blog como o teu haveria de colocar títulos com “porquê isso,porquê aquilo”, em vez de “sobre isto, sobre aquilo”. Mas eu não vejo necessidade de fazer um blog igual ao teu, já que eu ainda sou a menina dos porquês. Quando eu era menina eu gostava de vermelho, de dançar, de cantar e de chamar a atenção. Depois que eu cresci continuei a gostar das mesmas coisas. Ainda bem que eu virei artista e que por isso ninguém se escandaliza por eu gostar de chamar a atenção.
    A propósito, este comentário ficou muito grande para um blog. Eu particularmente não gosto de comentários pequenos. Digo-o referindo-me aos comentários que dizem respeito às coisas que eu escrevo. Não só ao que eu publico nos meus blogs (e eu não sou de publicar muito) mas ao que eu mostro a pessoas do mundo real, fora da blogosfera. Coisas do tipo “gostei muito” e “está muito giro” dão-me cabo dos nervos. Denotam uma tenebrosa falta de capacidade crítica. Ou preguiça, vá lá.

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