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Sobre o meu prato preferido

O meu prato preferido é o da sopa porque dá para levar mais comida, e até fazer pirâmides maiores do que nos outros pratos. A única coisa chata desse prato é que é muitas vezes utilizado para comer sopa, comida da qual não gosto. Na verdade, a sopa não deveria chamar-se de comida porque não se come, nem é bebida porque não se pode beber. Não se bebe porque tem pedaços de couve que ficam presos na garganta do esófago, e depois ficamos sem ar, roxos, e é preciso vomitar uma coisa verde para respirar outra vez.

As minhas comidas preferidas são muitas, mas a melhor de todas é o bife com batatas fritas. Às vezes também como um ovo de cavalo no bife. Os ovos de cavalo são pequenos, e até parecem ovos de galinha. O cavalo, tão grande, ter um ovo tão pequenino é para mim um mistério tão grande como a tal montanha que partiu um rato. Porque é que a montanha partiu o coitado do bichinho? Não sei, mas quando perguntei ao meu pai ele riu-se, por isso deve ser uma piada que não percebo.

A comida preferida não se pode comer todos os dias, porque senão acabavam as vacas e as batatas no mundo. Eu não quero que acabem as vacas, até porque gosto de leite com chocolate, e por isso não como o preferido todos os dias. Outra razão para não o fazer é que é a minha mãe que faz a comida, e ela é que decide. O meu pai também decide, mas é muito pouco.

Quando eu for maior e tiver uma casa só vou ter pratos de sopa. Como quero ter muitos, é melhor começar já a juntá-los. No outro dia, no restaurante do Zé Calisto, meti o prato de sopa da minha mãe na mala dela, para depois em casa eu ficar com ele. Mas, depois, ela descobriu e não gostou nada, porque o prato ainda tinha um pouco de legumes e sujou o telemóvel, a carta de condução, os lenços de papel, os recibos das compras, as coisas com que ela pinta a cara, a garrafa de água e as moedas que estavam espalhadas. Disto tudo o telemóvel foi o que sofreu mais, porque apesar de o termos secado com o secador, ele agora só dá o mesmo toque de cada vez que alguém liga. O toque é uma música dos Bom Jovem, uma banda de que a minha mãe gostava, mas da qual tem vergonha agora. Eu também teria vergonha de gostar de uma banda em que as pessoas têm cabelo esquisito, mas a minha mãe diz que era jovem e cometeu erros. Eu sou jovem e também faço erros, mas depois apago-os com uma borracha que me deu a minha tia Alcerina.

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