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Arquivo para Janeiro, 2008

Sobre as prendas

Prendas é a mesma coisa que presentes, mas como isso é o que também se diz quando a professora chama o nosso nome, inventou-se a palavra prendas.

Prendas é aquilo que se dá nos aniversários, nos anos, no Natal, na Páscoa e quando se quiser, por isso podia-se dar o ano todo que ninguém se importava.

Pode dar-se prendas a todo o tipo de pessoas, mas às más dão-se sempre umas prendas fraquitas. Também se podem dar prendas aos cães, mas nesse caso não se utiliza papel de embrulho porque eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada.

O papel com que se embrulham as prendas pode ser de muitas cores e com desenhos, ou só de uma cor e muito tristes. Nos centros comerciais há sempre uma bancada com raparigas a embrulhar prendas. As pessoas vão lá porque não têm jeito para embrulhar, mas só para desembrulhar. Eu também tenho mais jeito para o desembrulho do que para o embrulho.

Eu gosto de prendas porque é bom rasgar o papel. No outro dia experimentei rasgar o jornal ao meu pai, mas a sensação não foi nada boa, e até foi dolorosa. É que o meu pai ainda não tinha lido o jornal todo e, por isso, levei dois tabefes. Ler o jornal todo é uma chatice e demora tempo. Por isso, às vezes só se lêem as palavras principais, que se chamam de gordas porque ocupam muito espaço. Nos jornais há também palavras magras, que são as mais pequenas. O meu pai diz que num papel que se chama de contrato existe outro tipo de palavras. Essas chamam-se de miúdas, e devem ser filhas das magras porque são muito pequeninas e difíceis de ler. O meu pai diz que é preciso reparar sempre nas miúdas para sabermos o que assinamos. Eu, por outro lado, reparo sempre nas miúdas porque gosto de raparigas.

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Sobre o meu prato preferido

O meu prato preferido é o da sopa porque dá para levar mais comida, e até fazer pirâmides maiores do que nos outros pratos. A única coisa chata desse prato é que é muitas vezes utilizado para comer sopa, comida da qual não gosto. Na verdade, a sopa não deveria chamar-se de comida porque não se come, nem é bebida porque não se pode beber. Não se bebe porque tem pedaços de couve que ficam presos na garganta do esófago, e depois ficamos sem ar, roxos, e é preciso vomitar uma coisa verde para respirar outra vez.

As minhas comidas preferidas são muitas, mas a melhor de todas é o bife com batatas fritas. Às vezes também como um ovo de cavalo no bife. Os ovos de cavalo são pequenos, e até parecem ovos de galinha. O cavalo, tão grande, ter um ovo tão pequenino é para mim um mistério tão grande como a tal montanha que partiu um rato. Porque é que a montanha partiu o coitado do bichinho? Não sei, mas quando perguntei ao meu pai ele riu-se, por isso deve ser uma piada que não percebo.

A comida preferida não se pode comer todos os dias, porque senão acabavam as vacas e as batatas no mundo. Eu não quero que acabem as vacas, até porque gosto de leite com chocolate, e por isso não como o preferido todos os dias. Outra razão para não o fazer é que é a minha mãe que faz a comida, e ela é que decide. O meu pai também decide, mas é muito pouco.

Quando eu for maior e tiver uma casa só vou ter pratos de sopa. Como quero ter muitos, é melhor começar já a juntá-los. No outro dia, no restaurante do Zé Calisto, meti o prato de sopa da minha mãe na mala dela, para depois em casa eu ficar com ele. Mas, depois, ela descobriu e não gostou nada, porque o prato ainda tinha um pouco de legumes e sujou o telemóvel, a carta de condução, os lenços de papel, os recibos das compras, as coisas com que ela pinta a cara, a garrafa de água e as moedas que estavam espalhadas. Disto tudo o telemóvel foi o que sofreu mais, porque apesar de o termos secado com o secador, ele agora só dá o mesmo toque de cada vez que alguém liga. O toque é uma música dos Bom Jovem, uma banda de que a minha mãe gostava, mas da qual tem vergonha agora. Eu também teria vergonha de gostar de uma banda em que as pessoas têm cabelo esquisito, mas a minha mãe diz que era jovem e cometeu erros. Eu sou jovem e também faço erros, mas depois apago-os com uma borracha que me deu a minha tia Alcerina.

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