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Arquivo para Dezembro, 2007

Sobre o presépio

O presépio é uma data de bonecos de barro que se põem ao pé da árvore de Natal, para poder explicar às pessoas que não conhecem, ou são burras, o que aconteceu no dia de Natal de há muitos anos atrás. Aconteceu que nasceu Jesus, e é isso que se mostra.

No presépio existe uma cabana onde o Jesus fica estendido e deitado nas palhas. Nessa cabana está sempre um burro e uma vaca, porque se fossem aves, como patos ou canários, o Jesus podia apanhar a gripe das aves. Na cabana está também o pai de Jesus, que afinal não é o pai verdadeiro mas emprestado sem juros, e a mãe, que se chama Maria e por isso acho que deveria ser portuguesa. A mãe de Jesus teve-o porque um anjo disse para ela ficar grávida. Ela, como acreditava em tudo o que lhe diziam, engravidou.

No presépio há sempre outras figuras, como os Reis Magos. Eles também deveriam ser portugueses, porque acontece que viram uma luz lá longe e foram ver o que era, só mesmo para ver.

Existem sempre um pastor com ovelhas no presépio e um moinho sem farinha. Há também um espelho colocado no chão para fazer de lago. Se não houver espelho o presépio é mau, porque depois os bonecos dos cisnes não ficam bem em lado nenhum.

Para fazer o chão do presépio é preciso musgo, que é uma coisa verde, parecida com relva mas mais pequena, e que cresce agarrada às árvores e nas terras mais húmidas. Nós também temos humidade na nossa casa, mas não cresce nenhum musgo. A única coisa que aparece são umas bolinhas pretas, que o meu pai diz que se chama de bolor, mas não tem nada a ver com bolos. O meu pai também diz que a humidade faz a força e depois ri-se, mas eu não acho piada.

No presépio podemos brincar com todos os bonecos menos o Jesus. Não podemos brincar com ele porque está colado ao berço e às palhas, e depois fica estranho andar com o boneco de um lado para o outro, como se fosse uma pessoa gorda que ficou presa na cadeira.

Não se podem colocar outros bonecos no presépio, como os Plaimóbil ou o AcxionMan. Os Plaimóbil não se podem colocar porque eu não tenho nenhuns, e o AcxionMan é muito grande e parece um gigante. Um gigante é uma pessoa que chega sempre à última prateleira do armário da cozinha, e que muda as lâmpadas sem precisar de cadeira ou escadote. No presépio não há gigantes porque no tempo do Jesus eram todos baixinhos. Isso acontecia porque eles não comiam a sopa. Eu não gosto de sopa, mas como-a toda porque quero mudar lâmpadas sem cadeira ou escadote.

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Sobre o silêncio

O silêncio é quando não se faz barulho nenhum, e nem sequer se ouvem as moscas ou os puns.

O silêncio é preciso para fazer algumas coisas. Para fazer testes na escola é preciso silêncio, porque senão era uma balbúrdia e ninguém conseguia lembrar-se do que tinha estudado. Quando há balbúrdia é difícil lembrar-mo-nos das coisas, por isso o meu avô deve ter uma grande balbúrdia na cabeça. Ele no outro dia nem sequer se lembrava onde tinha metido a garrafa de vinho do Porto, até que o meu pai a descobriu dentro do autoclismo. O meu pai não explicou o que tinha ido fazer ao autoclismo do meu avô, e também ninguém perguntou. Acho que todos tinham medo que ele tivesse metido as mãos na água no autoclismo. Ele diz que a água que lá está ainda é limpinha, mas eu acho difícil de acreditar porque quando carrego no botão do autoclismo cá de casa a água que sai é de um azul adulto. O outro azul, mais clarinho, é o azul bebé.

O silêncio também se costuma fazer nos espectáculos e nos tribunais, que são quase a mesma coisa só que nos espectáculos há mais polícias.

Costuma dizer-se que o silêncio é de ouro porque nos sítios onde se vende ouro é preciso estar calado. O sítio onde se vende ouro chama-se de Ouraria, que juntamente com Alfama, Picheleira, Chelas, Rua Augusta e Terreiro do Paço são os bairros típicos de Lisboa. Há outros bairros, mas esses têm polícias e não há lixo na rua, e por isso não são típicos. Nas Ourarias temos que fazer silêncio para as pessoas pensarem muito bem se querem gastar aquele dinheiro num colar, brincos, anéis, pulseiras, ou então ir gastar tudo em gomas para os filhos. Eu já disse ao meu pai para ele fazer isso, e comprar um camião cheio de gomas, mas ele diz que não tem dinheiro nem para mandar cantar um cego. Eu nunca vi um cego a cantar, mas isso deve ser porque estamos em crise e ninguém lhe dá dinheiro. Crise é quando toda a gente se queixa que não tem dinheiro e depois, no hipermercado, compram tudo da marca branca.

Outra das frases que se costuma dizer é que temos que fazer o silêncio porque as paredes têm ouvidos. Acho isto um pouco estranho mas, como a rua tem um olho para onde vão as pessoas despedidas, já nada me admira.

Silêncio é também o que é preciso haver para existir o barulho, porque senão o barulho era o normal e nós nunca sabíamos a quantas andávamos. Eu às vezes ando a 20, mas depois corro e ando mais depressa, só que depois não sei a quanto ando porque não consigo contar.

Isto de falar do silêncio é complicado e difícil, por isso vou fazer o silêncio e calar-me. Chiu.

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