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Arquivo para Novembro, 2007

Sobre o dinheiro

O dinheiro é aquilo que se utiliza para comprar as compras. Também se podem utilizar cheques ou o cartão de multibanco, mas é tudo a mesma coisa porque vale tudo dinheiro. Só não valem dinheiro os cheques carecas, que se chamam assim porque só os senhores que não têm cabelo é que os escrevem. Como estes senhores não têm dinheiro para fazer tratamentos, nem para comprar perucas, também não têm dinheiro para escrever cheques. Para escrever cheques é preciso saber contar e escrever até 900 por extenso, ou seja, novecentos. Eu posso escrever cheques, mas não valem nada porque eu não tenho dinheiro. Podia ser pior, porque eu podia ser careca e isso não dava jeito.

O multibanco é o cartão que se põe nas máquinas para dar dinheiro, mas só saem notas quando se tem um saldo positivo, e para isso acontecer é preciso trabalhar muito. O meu pai diz que algumas pessoas têm muito dinheiro e não trabalham nada. Eles chamam-se de sortudos, ricos, betos, senhorios ou rabos-virados-para-a-lua.

No Natal e nas férias é quando se gasta mais dinheiro. Isto acontece porque os chefes dão um subsídio, que é ainda mais dinheiro, para ajudar a economia. A economia é uma coisa complicada, mas eu sei que tem a ver com dinheiro e com outra coisa chamada fraude fiscal. A fraude fiscal é uma coisa má, que acontece muitas vezes, mas ninguém vai preso porque não é nada parecido com roubar turistas ou velhotes. Para fazer fraude fiscal é preciso ter um fato de marca, e é preciso falar muito e não dizer nada.

O nosso dinheiro chama-se de Euro porque nós vivemos na Europa. Se vivêssemos na América o dinheiro chamava-se de Américo.

O sítio onde se guarda dinheiro é o banco. Às vezes, uns senhores vão roubar o banco para ter dinheiro para comprar carros, telemóveis, computadores e sapatos de marca. Isso é chamado de assaltar o banco. Acho que o nome é errado porque eu, no outro dia, saltei por cima do banco da cozinha e não ganhei nenhum sapato de marca. Eu até nem gosto de sapatos, mas podia ser que desse para trocar por uns ténis da Riboque, Naique ou Adias.

Eu gostava de ser rico e ter dinheiro para tudo. Se não puder ser, então quero Plaissetaixon e gomas. Obrigado.

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Sobre o circo, parte II

Ou

Como eu já me tinha esquecido que tinha escrito sobre o circo, escrevi outra vez. E eu até nem gosto muito de circo.

O circo é uma coisa que acontece numa tenda. Esta tenda é maior do que aquelas que se vêem na Costa da Caparica, porque têm que ter elefantes, leões, homens a vender balões, mágicos, palhaços, cavalos, homens a vender pipocas, trapezistas e uma banda que toque má música.

As tendas de circo são sempre coloridas porque senão a polícia pensava que eram turistas espanhóis a acampar ilegalmente, e expulsava-os do país, que é Portugal, à cacetada. A cacetada dá-se com um cacete, que é um pau com um nome mais bonito e comprido.

Eu já fui duas vezes ao circo. Numa era Natal, e na outra não.

No circo há palhaços. Eu não gosto nada de palhaços. O meu pai às vezes grita com os palhaços quando eles andam a conduzir mal na estrada e nas ruas. Os palhaços que eu vi no circo andam sempre a gritar e têm o nariz muito vermelho. Além disso, vestem-se de diferentes cores só para dar nas vistas. O meu vizinho Antunes também dá nas vistas, e também anda sempre aos gritos e com o nariz muito vermelho. A minha mãe diz que ele é um alcoólico, e o meu pai diz que ele é bêbado. Como eu não gosto de alcoólicos, e muito menos de bêbados, também não gosto de palhaços. Há crianças que se riem dos palhaços, mas elas não percebem nada do que se passa.

No circo também existem leões. Eles estão dentro de jaulas e nunca escapam. Se escapassem comiam logo o senhor das pipocas, porque ele é mais doce do que o senhor que vende balões. Na jaula com os leões está um senhor com um chicote que diz élá, oi, uoupá e áriups. Quando ele diz essas coisas os leões mexem-se e pronto. É só isso o que eles fazem porque eles não sabem fazer mais nada. Mas não são burros. São leões.

Quem também não faz grande coisa no circo são os elefantes. Eles andam ali às voltas, depois viram-se, voltam para trás e voltam outra vez para a frente e pronto. É muito aborrecido, e a culpa é do homem que cuida deles, porque os elefantes têm uma grande cabeça e deveriam aprender mais coisas. Eu que ainda sou pequeno já sei ligar o computador, e eles tão grandes só sabem dar voltas.

Mas, não é só de animais que é feito o circo. Às vezes também tem umas pessoas a fazer coisas. Umas são os trapezistas, que se chama assim porque dão umas voltas no ar que parece que tropeçaram em alguma coisa. Antes chamavam-se de trapecistas, mas como parecia que faziam tapeçarias, mudou-se o ç para z de Zorro e zás trás pás.

Outras pessoas no circo são os contorcionistas. Estes são sempre umas senhoras que se dobram por todos os lados, como se fossem de borracha, e fumam cigarros com os pés. Se fumar com as mãos é mau, fumar com pés deve ainda ser pior, por causa do chulé.

No circo podemos ver também os mágicos. A única coisa que os mágicos fazem é tirar pombas de um chapéu, brincar com uns lenços, atar pessoas e fazer desaparecer coelhos. Eles têm sempre uma senhora ao lado, que sorri muito, e se chama de partenére. Esse é um nome estranho, e tenho pena da senhora porque ela deve ter sido muito gozada quando andava na escola. Eu às vezes também sou gozado, mas depois o pitosga do Luís tropeça no recreio e passamos a gozar com ele.

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Sobre o frio

O frio é uma coisa que acontece quando está pouco calor, ou mesmo quando não há calor nenhum. Normalmente é no Inverno que aparece o frio, mas às vezes também há frio no Verão. O meu pai diz que isso acontece porque a cambada do ozono está fininha e com buracos. Acho mal a cambada ter buracos, e se fosse eu já lhes tinha dado uns remendos, só que o meu pai diz que a cambada é difícil de apanhar.

Quando faz muito frio diz-se que está um frio de rachar, ou então, como se diz na terra do meu pai, está um frio de congelar os tomates. Isso é um pouco estranho, porque quando faz frio todos os legumes da horta do meu avô ficam congelados, e não são só os tomates. Assim, deveria dizer-se que está um frio de congelar a horta.

Para sairmos à rua quando está frio temos que vestir muitas roupas e beber coisas quentes. O chato é que as coisas quentes ficam logo frias quando saímos à rua, por isso convém beber em casa. Beber em casa é alcoolismo. Beber na rua é bebâdosismo.

A peça de roupa que eu mais gosto de vestir é o cachecol, porque ele dá para amarrar na cabeça como o Rambo. O Rambo é um senhor de um filme que o meu pai tem em casa. Ele anda sempre zangado e com a boca de lado, mas tem músculos. Eu quero ter músculos quando for grande. Agora não posso ter porque, como sou pequeno, ficava ainda mais esquisito do que as grandes mamas do Zé Gordo.

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