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Arquivo para Novembro, 2006

Sobre o nadar

Este texto eu escrevi já há algum tempo, quando estava na praia. Eu estava lá e fiquei inspirado, que é mandar ar para dentro dos pulmões e ao mesmo tempo ter uma ideia. Só escrevo aqui agora porque tinha perdido o papel, mas hoje, quando estava a arrumar o balde da praia no sótão, encontrei o papelinho todo amarrotado. Quando se amarrota diz-se com licença e bom proveito.

Nadar é a mesma coisa que caminhar dentro de água. Pode-se nadar no rio, no mar, no lago, na barragem, na piscina e no tanque se ele for grande.

O nadar pode fazer-se de várias formas, que se chamam de estilos. Existem os estilos cróle, costas, bruços, mariposa e à cão. O estilo mais normal é o estilo de cróle, em que os braços funcionam como se fossem as pás de um moinho. O estilo de bruços é o nadar como se fosse uma rã adulta, porque o nadar das rãs bebés, que se chamam de girinhos porque são engraçados, é muito diferente. Um estilo que a nadar não dá jeito nenhum é o de costas, porque não se consegue ver por onde se anda e vai-se de encontro às pessoas e elas ficam irritadas porque lhes partimos o nariz. O estilo à cão é nadar como os cães, só que não convém ter a língua de fora como eles, porque pode entrar água e a gente engasgar-se.

O estilo mais difícil de nadar é o da mariposa. Eu estou na natação há uma semana e ainda não sei, por isso é que é difícil. As mariposas são umas borboletas que, pelos vistos, andam na água. O estilo mariposa faz-se com os dois braços ao mesmo tempo, tal como as borboletas fazem com as duas asinhas. Só se pode nadar assim com os dois ao mesmo tempo, porque se as borboletas também batem-se só uma asinha de cada vez andavam aos ziguezagues e aos ésses.

Ziguezagues e ésses é quase a mesma coisa, só que os ziguezagues são com mais força.

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Sobre as ecografias

As ecografias são uns exames que as grávidas fazem quando têm o bebé na barriga. Quando já não está na barriga elas deixam de ser grávidas, e passam a ser mães ou mãezinhas, depende só se os filhos são ou não uns mariquinhas.

Eu no outro dia fui com a minha mãe fazer a ecografia dela. Ainda não deu para ver se o bebé tem uma pilinha ou a falta dela, que é a coisa que têm as raparigas.

Aquilo da ecografia começa com o médico a pôr um creme na barriga da mãe. O creme é para a pele ficar bonita e não estalar. Se eles põem muito creme a ecografia fica mais cara. Se eles puserem pouco mas gravarem em dêvêdê, fica cara na mesma.

Depois do médico espalhar o creme pega numa coisa parecida com uma trincha, só que sem os pêlos. Uma trincha é um pincel mais alargado, como se tivesse engordado para os lados. Depois, o médico começa a passar na barriga da mãe com a trincha e a televisão mostra o bebé. Na verdade, não mostra bebé nenhum porque naquilo só se vêem umas manchas de cinzento, mas dá para perceber a forma dos braços, das pernas e da cabeça, menos do nariz porque como ainda não é osso não se vê. Eu tinha medo que o bebé nascesse em cinzento, mas a minha mãe diz que é a ecografia que não consegue mostrar as cores. Acho isto um bocado parvo, até porque o exame se faz com uma coisa que parece a trincha de pintar. Acho que já deviam ter inventado umas ecografias a cores, até porque já conseguiram inventar os computadores do Homem-Aranha.

As ecografias têm esse nome porque, disse-me o médico, as imagens aparecem por causa dos ultra-sons e assim fazem o eco. Acho que confundir imagens com sons é uma parvoíce, mas se o médico passou tanto tempo a estudar, alguma razão deve ter. Os médicos estudam muitos anos porque precisam conhecer as doenças todas, saber preencher os impressos das receitas e dos exames, e porque precisam conhecer os hospitais e todos os sítios onde ficam os guichés do atendimento.

Eu estou muito contente com o bebé, mas ainda não o consigo imaginar. Quando o vi na ecografia ele estava dentro de uma coisa que parecia um feijãozinho. Acho isto muito normal, até porque a minha mãe agora está sempre a dar puns. Ela pede sempre desculpa e diz que não consegue evitar. No outro dia eu dei um grande pum e apanhei logo uma chapada. Eu bem disse que não consegui evitar, mas o meu pai nem acreditou. Eu dei o pum lá no elevador do trabalho dele, e toda a gente ficou a olhar para mim. Quando me fui embora de lá, já ao fim da tarde, o elevador ainda cheirava muito mal, por isso não dêem puns nos elevadores.

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