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Arquivo para Julho, 2006

Sobre os amigos

Os amigos são as pessoas de quem nós gostamos mais, e que gostam também de nós. Mas, não podem ser da nossa família porque esses não são amigos, são os familiares.

Eu gosto dos meus amigos porque com eles posso fazer coisas que os meus familiares não deixam, como chapinhar nas poças de água com as galochas e cuspir para o ar.

Os amigos são quase como as namoradas e os namorados. Só não são iguais porque com eles não se dão beijinhos na boca, não se anda de mão dada e não se fazem desenhos para oferecer.

Eu tenho muitos amigos porque muitas pessoas gostam de mim. O Tó do Talho é meu amigo porque oferece-me gomas quando me encontra no café. Quando ele não está lá, vou ao trabalho dele pedir-lhe.

Eu tenho amigos meninas e amigos meninos. Os meninos chamam-se sempre de companheiros ou de malta. As meninas são o que se chama de amigos do peito, porque quando elas crescerem vão ter maminhas como as mulheres.

O meu pai diz também que existem os amigos da onça. A onça é um animal parecido com o leopardo, por isso ser amigo da onça é gostar muito de animais.

O melhor amigo é aquele que divide as gomas connosco; o só amigo é o que nos dá uma goma e come duas; e o que come todas as gomas sem nos dar nenhuma é o familiar, como o meu primo Rogério. O meu pai também come as gomas todas e diz que é para eu não estragar os dentes. Não percebo como é que uma goma, que é mole, consegue estragar o dente, que é uma coisa tão dura. A minha mãe diz que é por causa do açúcar, mas eu também já experimentei comer açúcar e não foi por isso que parti os dentes.

O contrário de amigo é o inimigo. Nos filmes os inimigos têm um bigode, vestem-se todinhos de preto e fumam uns cigarros. Eu não tenho inimigos porque nenhuma das pessoas que conheço faz isso.

Viva os meus amigos e viva eu porque sou amigo deles. Viva!

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Sobre a preguiça

A preguiça é a vontade de não ter vontade de fazer alguma coisa. Se tivermos alguma coisa para fazer, e não nos apetecer mesmo nada, chama-se de preguiça, mas se não tivermos nada para fazer, nem a vontade, chama-se de relaxar.

A preguiça pode dar a qualquer pessoa, a qualquer hora do dia, mas normalmente acontece a seguir ao almoço porque as pessoas bebem cerveja e comem batatas. Se comessem arroz e bebessem sumo isso não lhes acontecia. A cerveja faz muito mal e dá para apanhar a preguiça porque é feita de cereais, e os cereais vêm todos do Alentejo, país onde as pessoas andam muito devagarinho. As batatas fazem mal porque pertencem à família dos ideratos de carbono. Os ideretos estão em várias comidas, mas são sempre uns indecissos, porque tão depressa dão sono como dão energia. Eu como bebo muito sumo nunca tenho preguiça porque estou sempre a levantar-me para ir fazer xi-xi. O arroz faz muito bem para curar a preguiça porque vem da China, e os senhores da China estão sempre a trabalhar e nem param no Natal, nem fazem greve. A greve é também uma forma de preguiça porque as pessoas que a fazem sabem que têm que ir trabalhar mas não lhes apetece.

Há também um bicho que se chama de preguiça porque, diz o meu pai, eles são muito lentos. Mas também os caracóis são lentos e não é por isso que se deixam de chamar de caracóis. Eu gosto muito dos caracóis do café aqui ao pé de casa. Não gosto muito das caracoletas porque essas têm muito ranho. As caracoletas largam o ranho para poderem deslizar melhor no cimento. Se não tivessem o ranho eram ainda mais lentas e não se chamavam de caracoletas. Eram lesmas.

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