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Arquivo para Abril, 2006

Sobre o 25 de Abril

O 25 de Abril é um dia muito bom porque é feriado. Há muitos anos atrás uns tropas, como era feriado e não tinham nada para fazer, resolveram derrubar o regime. A minha mãe diz que agora está a fazer regime e eu tenho medo que a derrubem.

Antes do 25 de Abril havia uma polícia com nome de detergente e que era muito má. Essa polícia chamava-se de Tide e os senhores que andavam nela eram todos carecas, com bigode e tinham os olhos muito pequeninos como os velhacos.

O nosso país, antes do 25 de Abril, tinha outras terras no estrangeiro, que se chamavam todas de Ultramar. No dia 25 o nosso país deixou de pagar a renda dessas terras e as pessoas tiveram que vir embora todas nuas, porque o meu pai diz que elas vieram com uma mão à frente e outra atrás.

O meu pai diz que com o derrube do regime passámos a viver em democracia. Eu acho que a democracia é uma coisa má porque escreve-se, no início, com as mesmas letras de demónio, e o demónio é mau, a não ser os diabos vermelhos do Benfica que são bonzinhos. Os meus pais dizem sempre que democracia é bem melhor que a ditadura. Eu não sei o que é uma dita, mas acho que se estiver dura é um problema.

O 25 de Abril não existe em mais nenhum país a não ser no nosso. Eu gosto do 25 de Abril porque vou sempre passear com os meus pais. Não gosto porque não dá nada de jeito na televisão. Viva o 25 de Abril!

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Sobre o circo

 

O circo é uma tenda quase parecida com aquelas que existem nos parques de campismo da Costa da Caparica, só que são às cores e um pouquinho maiores. Na tenda do circo estão os lugares, feitos em ferro, onde nos sentamos a ver o espectáculo que os senhores fazem.

Eu vou todos os Natais ao circo de um senhor italiano, que acho que se chama Marco Belini. O meu pai diz que esse senhor também faz pizas. Acho que ele faz as pizas nas horas vagas, para ver se ganha mais dinheiro para alimentar os animais do circo e para pintar a tenda, que passa o tempo todo ao sol e as cores desbotam. A minha mãe tem uma lixívia que não desbota as cores, por isso o senhor Belini devia lavar a tenda com essa lixívia.

No circo existem muitos espectáculos, como os palhaços, os trapezistas, os equilibristas, os acrobatas, o homem-bala e os domadores, que são as pessoas que gritam e dão com o chicote nos animais para eles fazerem o que lhes mandam.

Eu não gosto de ver os animais porque eles estão sempre tristes, mesmo quando batemos palmas. Os animais que nunca estão tristes são os tigres e os leões. Esses estão sempre zangados e a mostrar os dentes. Eu tenho medo que um leão salte da jaula e me morda no pé, mas o meu pai diz que isso não vai acontecer porque as jaula são em aço inoxidável. Inoxidável quer dizer que as coisas nunca apodrecem e por isso nunca partem. As maçãs não são inoxidáveis porque podem apodrecer e conseguem-se partir com uma faca.

Eu só vou ao circo no Natal porque é nessa altura que os meus pais recebem o subsídio. O subsídio é o dinheiro a mais que se ganha nessa altura e nas férias, e que serve para ir jantar fora e pagar a Segurança Social.

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Sobre o café

O café é uma bebida preta e às vezes castanha que se bebe quente e com açúcar. Só os adultos é que podem beber. A mim não me deixam porque dizem que fico eléctrico e eu também não quero. Uma vez, quando era mais pequeno, enfiei os dedos na tomada da televisão e fiquei eléctrico. Não gostei nada.

A minha mãe diz que à noite não pode beber café, por isso pede um descafeinado. O descafeinado é a mesma coisa que o café só que sem a cafeína, que é um bichinho que vive nos grãos e que nunca pára quieto, por isso quando se bebe cafeína as pessoas correm como se fossem malucas porque os bichinhos as obrigam. O descafeinado é muito mais caro porque tem que se partir todos os grãos do café e tirar o bicho lá de dentro.

Os cafés bebem-se num sítio que também se chama de café, onde se podem beber sumos, comer gelados, bolos e gomas, e ver a SporeTV. Eu às vezes vou com o meu pai ao café ver a SporeTV porque nós não temos em casa. O meu pai diz que é muito caro e que os senhores da TV Cabo são uma cambada de ladrões. Quando o senhor da TV Cabo bate à porta em casa, eu vou logo a correr buscar o meu tractor, que é todinho em ferro, para atirar na cabeça dos ladrões. A minha mãe quando abre a porta aos senhores da TV Cabo diz sempre para eles terem cuidado com a criança. Quando é o meu pai, ele diz-me sempre atira filho atira e o senhor foge logo.

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Sobre a Páscoa

A Páscoa é uma altura do ano em que os doces aumentam todos de preço, especialmente as amêndoas de chocolate, porque só se fazem nesta altura do ano. Plantar uma árvore que dê amêndoas de chocolate é muito difícil, porque elas estão sempre a derreter ao sol.

Na Páscoa comemora-se o aniversário da primeira comunhão de Cristo, que foi um senhor que morreu com uma martelada mal dada e depois, afinal, não tinha morrido, mas depois afinal tinha.

Na Páscoa não se pode comer carne porque nesse dia as vacas estão loucas e os perus estão com gripe. Só se pode comer peixe e pastéis de bacalhau. Rissóis de camarão não se podem comer porque o camarão é um moluscúlo, mas devia chamar-se de duruscúlo, porque ele não é nada mole. A única carne que se pode comer na Páscoa é o coelho e por isso é que há o Coelho da Páscoa. O Coelho da Páscoa distribui os ovos de chocolate para ver se nos enfartamos de doces e depois não o comemos.

O meu pai diz que a Páscoa foi inventada pelos dentistas, porque comemos muitos doces e o meu pai diz que os dentistas ganham um balúrdio. O balúrdio é a mesma coisas que muito dinheiro, mas é só uma palavra e assim não nos cansamos a dizer muito dinheiro.

Eu gosto da Páscoa porque o meu padrinho me dá amêndoas e uma nota para gastar em gomas, mas a minha mãe diz que o dinheiro não é para gastar mas para poupar. Poupar é guardar o dinheiro no migalheiro e ficar à espera de ter muito para comprar aquilo que queremos. Eu quero um mano, mas acho que vou ter que poupar muito para comprar uma vida fácil. O meu pai diz que eu não tenho um mano porque a vida está difícil. Se demorar muito a poupar o dinheiro para uma vida fácil, desisto e compra uma Plaissetaixon, que também é divertida e nem tenho que lhe emprestar os brinquedos. O chato da Plaissetaixon é que, diz a minha mãe, vicia e viciar é uma coisa má porque depois andamos a assaltar carros.

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Sobre o rádio

O rádio é um aparelho que se chama de electrónico porque funciona com electricidade. Também os há a pilhas, mas não se chama de pilhónicos. Chamam-se de portáteis.

O rádio dá músicas, missas, notícias, anedotas, trânsito, programas, concursos e passatempos. Só não dá filmes porque se desse não era um rádio, era uma televisão ou cinema.

O rádio dá todas aquelas coisas porque tem uma antena especial que apanha ondas. Estas ondas não são como as da praia porque são umas ondas secas que viajam no ar e ninguém vê.

As pessoas que falam nos rádios trabalham nas emissoras. As emissoras são as empresas que estão no último andar dos prédios porque lá de cima é que se consegue atirar melhor. Quanto mais alto for o prédio, mais longe vão as ondas.

Os senhores que trabalham nas emissoras chamam-se de radioafónicos porque passam o dia a falar muito e depois ficam sem voz. O afónico é uma pessoa que fala, fala, fala, fala, fala, fala e depois tem que estar muito caladinho porque gastou a garganta toda.

O carro do meu pai tem um rádio com leitor de cêdês. O cêdê é uma bolacha prateada com um buraco no meio mas não se pode comer, senão fica riscado e já não dá música. O meu pai só ouve a rádio das notícias que é para saber o que se passa no nosso país, que é o Portugal Heróis do Mar, e no estrangeiro, que é a mesma coisa que dizer lá fora.

O meu pai é muito curioso e diz que devora notícias, por isso acho que é ele que risca os cêdês quando tem fome de notícias. Ele também só ouve o rádio para saber como está o trânsito. Se estiver engarrafado ele vai por outro sítio, porque o meu pai não gosta de beber da garrafa. Ele bebe a partir do copo mas eu nunca ouvi dizer que o trânsito estava encopado, porque se estivesse ele ia por lá quase de certeza.

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Sobre a meteorologia

Meteorologia é uma palavra nova que aprendi ontem. Fazer a meteorologia é conseguir adivinhar o tempo que vai fazer amanhã e até nos dias a seguir. Quem faz a meteorologia são os meteorologistas, ou senhores do tempo, que são como os adivinhos que aparecem nos jornais. A maior parte dos meteorologistas são zarolhos, porque o meu pai diz que eles não acertam uma.

Para ser meteorologista é preciso estudar muito numa escola especial. Nessa escola eles têm aulas com muitos professores e também com a Maya, que é uma adivinha que aparece na televisão. Ela ajuda-os a adivinhar o tempo que aí vem e se a chuva é muita ou fraquinha.

O nome da Maya escreve-se com uma letra estrangeira que é o Y. Esta letra chama-se de ipesilón, e é como um se fosse um i grande a quem um lenhador deu uma machadada, mas como era fraquinho só o conseguiu rachar até ao meio.

O tempo que faz para os dias a seguir pode chamar-se de muito sol, mais ou menos sol, poucochinho sol, pouco nubelado com abertas, pouco nubelado sem abertas nenhumas, muito nubelado, chuviscos, chuva molha-parvos, chuva a sério, trovões, tempestade, frente fria e anticiclone dos Açores.

Na meteorologia adivinha-se também como vai estar o mar por causa dos pescadores, dos surfistas e dos navegadores dos Descobrimentos. Uma vez ouvi um senhor dizer que o mar ia estar encrespado e com vacas de dois metros. Fui ao mar e não vi o senhor Crespo, que tem o minimercado ao pé da minha casa, nem nenhuma vaca, quanto mais com dois metros.

Os senhores do tempo também adivinham quanto vento vai estar amanhã, que é para se saber se se põe muita ou pouca laca no cabelo.

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Sobre as férias

As férias são umas alturas do ano em que as escolas fecham todas e as aulas param de ser dadas. Por isso, podemos ficar em casa a brincar e a ver desenhos animados.

Nas férias não se faz nada, mas para isso temos que estar acordados. Se estivermos deitados não se chama de férias, chama-se de dormir ou fazer a sesta. A sesta é uma coisa que se faz de tarde e pode ser a qualquer dia da semana, mesmo à segunda ou à quinta-feira.

É nas férias que eu e os meus pais viajamos para a terra. Eu gosto de ir à terra porque consigo ver as vacas a andar e a pastar, o que é muito diferente daquelas que eu vejo no talho.

Na terra o ar é mais puro e, por isso, não nos constipamos e podemos andar de boca aberta para ver se entra uma mosca. Se entrar uma mosca ficamos curados das asneiras e nunca mais dizemos uma. As asneiras são palavras feias. Quem diz as asneiras são os asnos, que também se podem chamar de burros, deputados ou taxistas.

O meu pai diz sempre que as férias são curtas, mesmo que sejam muito compridas. Acho que o desejo do meu pai é estar sempre de férias, mas ele ainda não o pode fazer porque faltam-lhe muitos anos para ser velhinho e ser um reformado. A reforma é o salário que os velhinhos recebem por não fazerem nada e para não atrapalharem nos transportes.

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