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Arquivo para Março, 2006

Sobre a neve

A neve é uma coisa branca que cai do céu quando faz muito frio e não chove. Quando cai faz montes que parecem chantili mas não é doce porque eu já provei.

A neve é muito fria porque se fosse quente não era neve, era chá de ervas porque a neve cai sempre em cima de ervas e se estivesse quente fazia chá.

Quando se caminha em cima da neve faz-se uns barulhos esquisitos e os pés enterram-se muito quase até ao pescoço. Uma vez, na terra do meu pai ao pé da vacaria do tio Quim, também enterrei o pé numa coisa que fez barulho mas não era neve porque cheirava muito mal. Era um monte de cocó de vaca, que são muito grandes porque as vacas são gigantes e vivem o dia todo na vacaria e quando saem à rua estão aflitinhas.

Na neve posso atirar-me para o chão sem me magoar porque tenho um blusão muito grosso que o meu tio António me enviou de França. A neve só existe na Serra da Estrela e no Eurosport quando é a altura dos Jogos Olímpicos.

Eu um dia fui com o meu pai e a minha mãe e a minha tia Alice à neve e gostei muito, mas depois não gostei nada porque o meu pai atirou-me uma bola de neve muito rija e fiquei com um inchaço na cabeça. Ele pediu desculpa e disse que inchava desinchava e passava. A dor passou porque eu pus gelo para não fazer um galo. O gelo não magoa porque não se consegue agarrar para atirar.

Quando fui à neve a minha tia Alice comprou-me um trenó, que é a mesma coisa que o Pai Natal tem, só que o meu não tem aqueles burros esquisitos com uns corninhos todos tortos. Acho que com os burros era mais caro, e a minha tia Alice não comprou. O meu pai diz que a minha tia é forreta. Forreta é uma profissão em que se passa o dia a forrar sofás e maipeles.

Eu gostei de andar de trenó, mas depois não gostei nada porque foi a altura em que o meu pai me atirou a bola de neve.

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Sobre o banho

O banho é uma coisa que se toma e também se pode chamar de lavar. Tomamos um banho quando estamos nus ou de calções, não se pode é ter meias.

O banho pode ser tomado em muitos sítios mas o melhor é na banheira ou no póliban, que é como uma banheira em miniatura só que não dá para deitar nem para encher.

Quando se toma banho utiliza-se sempre o champô 2 em 1, que é para lavar a cabeça e o cabelo ao mesmo tempo. De manhã não se pode usar o amaciador, senão passamos o dia a abrir a boca com sono e muito moles.

Depois de lavar a cabeça e o cabelo lavamos o resto com gel, que é para ficarmos rijos e duros para ir para a escola. O meu pai diz que no tempo dele não havia gel, e por isso tomavam banho com sabão macaco. É triste, mas no tempo do meu pai eles eram muito pobrezinhos e tinha que fazer sabão a partir dos macacos que tiravam.

Temos que tomar banho para nos limparmos das coisas que apanhamos quando saímos de casa, como a lama, o pó da poluição, o chocolate dos doces e os mircóbios dos doentes que espirram no comboio.

Se não quisermos tomar banho, bebemos um Aquetimele para nos protegermos dos mircóbios. O banho serve também para limpar do suor que se apanha quando corrermos. O meu pai diz que o suor é bom para limpar as toxinas. Eu não sei bem o que são as toxinas, mas acho que não tenho e por isso não preciso de suar.

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Sobre as profissões

As profissões são coisas que os adultos fazem quando não têm tempos livres. Nos tempos livres pode-se fazer tudo, mas na profissão só se pode fazer uma coisa de cada vez.

A profissão pode chamar-se também de emprego, trabalho, castigo ou tacho. O meu pai diz que o tacho é a profissão dos senhores que coçam a micose. Eu não sei o que é a micose. O meu pai diz também que o tacho é que é bom, mas eu não acho porque a minha mãe faz sempre o peixe cozido no tacho e eu não gosto de peixe.

A profissão do meu pai é fazer pontas de corno. Um dia fui ao trabalho dele e quando ele vinha embora disse adeus colegas que eu hoje não faço nem mais a ponta de um corno.

Eu conheço muitas profissões, mas agora só me lembro de poucas. Existe o agricultivador, que faz crescer os legumes e os porcos; o serralheiro, que faz a serradura; o ensinador, que também se chama de professor; o revisor, que também se chama de pica porque anda sempre com uma agulha; os dótoures, que curam as doenças que doem; os fazedores de pontas de corno, como o meu pai; e os chulos, que a minha mãe diz que fazem churros e farturas nas feiras lá da terra dela.

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Sobre a dor de cabeça

A dor de cabeça acontece quando pensamos muito ou quando acordamos antes da hora por causa do barulho do vizinho de cima.

Dentro da cabeça temos o cérebro que é uma esponja cinzenta parecida com a mioleira que a minha mãe me obrigava a comer quando era mais pequeno. O cérebro está cheio de bichinhos muito pequeninos que se chamam de neurónios. Quando pensamos muito os neurónios começam a correr de um lado para o outro a falarem uns com os outros, e é por isso que ouvimos uma vozinha quando estamos a pensar. Como eles andam a correr de um lado para o outro, têm acidentes e chocam e por isso ficamos com dor de cabeça.

Eu não gosto das dores de cabeça porque depois tenho que tomar um comprimido, que é parecido com um semarti só que não sabe a chocolate. Há outros comprimidos que se chamam de cápesulas, que são em forma de croquete mas muito mais pequenos.

Às vezes batemos com a cabeça e ficamos com dores mas não é a mesma coisa. Quando batemos aleijamos o querânio, que é o osso que temos na cabeça e é a casca do cérebro. Depois ficamos com um inchaço e temos que pôr gelo para ficar pequeno. O meu pai também gosta de pôr gelo mas não é na cabeça, é no uisquei.

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Sobre a praia

A praia é um sítio onde se vai quando está muito calor para se poder tomar banho. Também se pode tomar banho na banheira ou na piscina, mas não é a mesma coisa.

A praia fica sempre ao pé do mar. Se não estivesse ao pé do mar era só muita areia como nas obras. O mar tem ondas por causa dos barcos que aceleram na água. Se não acelerassem não havia ondas e dizia-se que o mar estava fraco.

A areia é sempre amarela. Se for de outra cor é porque está estragada com petróleo e cigarros.

Eu às vezes gosto da praia. Outras vezes não gosto porque fico cheio de areia no rabo. Eu depois coço-me, mas não me importo porque gosto de me coçar. O meu pai às vezes diz que me vai dar uma coça e eu fico contente. Depois ele bate-me e eu fico com dores e emociono-me e choro.

Eu um dia vou até à praia e nado até à América, mas depois volto porque o meu pai diz que lá são todos malucos. Mas quando for à América vou beber muitas cocacolas porque a minha mãe aqui não deixa. Ela diz que a cocacola corrói. Eu acho que a minha mãe não sabe que são os dentes que roem. Não é o rabo.

Na praia existem muitos senhores que se chamam de fresquinho, porque o senhor que vende gelados conhece toda a gente e diz sempre olá fresquinho.

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Sobre os casamentos

Os casamentos são uma coisa que acontece quando a mulher se veste de branco e com folhos de renda, e o homem se veste de fato e penteia-se com gel.

Os casamentos são sempre em Agosto por causa dos emigrantes. O meu tio António é emigrante e asmático. Ele trabalha em França. Antes ele recebia o ordenado em frangos franceses, agora recebe em euros, que é a moeda da Europa toda e até de Portugal. Se ele trabalhasse cá também recebia em euros, por isso não sei porque é que ele continua lá.

No casamento vamos todos para igreja e esperamos que o Deus diga ao padre que as pessoas estão casadas. Depois vamos para o copo de água que é um almoço onde se come de tudo e se bebe sumos. O almoço chama-se de copo de água porque antigamente as pessoas saíam das igrejas e iam só ao café comer uns bolos e beber uns copos de água. Depois apareceram as quintas que organizam as festas e tudo mudou, menos o nome porque já era tradição chamar copo de água ao copo de água. As pessoas que são pobres não se podem casar porque não têm dinheiro para a festa.

Não gosto muito de casamentos porque a minha mãe obriga-me a vestir calções, ir de sapatos e laço, e com um fio e uma pulseira de ouro que a minha avó me deu. Eu queria ir de ténis e calças de fato de treino mas a minha mãe não deixa porque isso é ir mal vestido. Eu gosto mais quando estou mal vestido.

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Sobre o sono

O sono é uma coisa que dá às pessoas quando estão muito cansadas e quase a cair para o lado. Quando as pessoas estão a cair para a frente não se chama de sono. Chama-se tropeçar ou bebedeira.

O sono faz-se melhor na cama, que é o meu sítio preferido do quarto. A minha cama é grande porque cabo lá eu e os meus tractores. Eu tenho um edredon de penas de ganso com um desenho do Poquemon amarelo que se chama picaxu. As penas aquecem muito e eu acho que é por isso que os gansos andam com gripe e depois passam a doença aos outros pássaros.

Também se pode fazer o sono noutros sítios como o comboio, o sofá, o autocarro, os discursos e o carro. Os senhores que dormem nos carros chamam-se de palhaços, porque o meu pai pergunta sempre ó palhaço estás a dormir? quando os carros vão muito devagarinho na estrada. O meu pai diz também que há uns senhores que ganham muito dinheiro e passam o dia a dormir e que se chamam de deputados.

O sono é muito bom porque podemos sonhar com gomas, tractores, caterpilas e praia. Quando o sonho corre mal passa a chamar-se de pesadelo. No pesadelo sonhamos com sopa, cuecas e meias rotas e ensopado de borrego.

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