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Sobre a gripe

A gripe é uma doença que nos acontece quando andamos descalços ou quando apanhamos uma corrente de ar. As correntes de ar não se vêem, mas o meu pai diz que uma vez viu uma pessoa a morrer por causa de uma. Eu tenho um medo muito grande das correntes de ar e gostava de as ver para poder esconder-me logo. É muito chato não as conseguir ver, porque às vezes eu dou puns quando penso que ninguém está perto, e se a corrente de ar ouve ainda fica chateada e bate-me. As correntes de ar são como a sensação quando o Benfica ganha o campeonato: não se vê o que é, mas sente-se cá dentro. Uma vez o Benfica ganhou o campeonato, a taça, a tacinha e os 110 metros com fardos de palha. O meu pai ficou muito contente e foi para a rua grita ÉsseÉBê, que é o outro nome que o Benfica utiliza quando está com os amigos a pagar imperiais.

Voltando às gripes: eu estive com gripe. Já estou melhor, mas ainda não recuperei porque ainda tenho uma coisa verde que às vezes me sai da boca. Quando sai da boca diz-se que é eispetoração. Quando sai do nariz diz-se que é ranho ou macacos. Mas é tudo uma grande porcaria e não se pode comer. Com a gripe às vezes vem a febre, que é o nosso corpo a ter muito calor, muito calor e depois, um dia, pára. Não sei para que serve a febre, mas acho que no Inverno devíamos ter sempre a toda a hora para não ter frio. Se calhar é por isso que até há mais gripes no Inverno.

Outra coisa que acontece com a gripe é ter espirros. Ter espirros até é giro porque podemos fazer um grande barulho que ninguém nos ralha. Eu aproveito os espirros para gritar porque cá em casa não me deixam falar alto. Mas isto não quer dizer que gosto de ter gripe, porque a gripe no outro dia fez-me ficar na cama sem jogar na consola do pai. Eu gosto de jogar na consola do pai. Acho que a mãe também gosta porque no outro dia, à noite, eles estavam no quarto deles e eu só ouvi a mãe a dizer, muito depressa e com a voz de quem estava a correr,  ai consola-me, consola-me que eu gosto tanto.

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Sobre os brinquedos

Os brinquedos são umas coisas muito inteligentes porque servem para brincar e fazer brincadeiras brincando com eles. Também servem para atirar à cabeça dos outros miúdos quando eles me irritam e começam a dizer que eu cheiro mal dos pés. Eu não cheiro mal dos pés, e às vezes cheiro é um bocadinho mal debaixo dos braços, mas isso, diz o meu pai, é normal e até saudável. Ser saudável e cheirar mal não é uma coisa muito bonita e boa, mas também há muitas coisas que não são bonitas mas são precisas para vivermos, como o arame farpado, o sumo de ananás de pacote e a chave de grifos. A chave de grifos é uma chave que o meu pai tem e que utilizou uma vez para entrar na casa da vizinha Graciete, que tinha ido de férias e deixou o rádio ligado na missa.

Eu não tenho muitos brinquedos. Só tenho um cavalo de balanço, 45 livros, 17 carros grandes, 18 carros pequenos, e um que parece o carro do Bátemén, mas que não é porque o carro do Bátemén é preto e aquele que eu tenho é só escuro. Tenho também muitos puzles, que são umas peças que se encaixam umas nas outras para fazer uma cara ou paisagem ou nada de especial. O puzle é assim como se fosse o lego, só que não vai para cima. Ah, e também tenho legos. Tenho 14 mas um deles é um lego da feira que a minha avó comprou, e que uns dias encaixa, e noutros não. O meu pai diz que o lego é rasca, mas não me parece porque eu nunca vi o lego da feira a ir à casa de banho.

Tenho também 37 figuras de um exército, mas que nunca combatem e fazem sempre paz. Fazer paz é não fazer nada e ficar a gozar a vida, a beber cervejas, comer tremoços e dizer mal do governo. O governo é um senhor que vive numa casa que se chama governadoriadeira, e que quer mandar nas pessoas mas ninguém presta atenção ao que ele diz. Ele depois fica triste, e diz que a culpa é a da oposição. A oposição é o vizinho da frente, e que ouve música até muito tarde e irrita o governo.

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Sobre o regresso

Regresso é voltar depois de ter ido. Não se chama voltarido porque ninguém se lembrou que era mais fácil assim. Às vezes as pessoas não se lembram que as coisas fáceis são mais fáceis que as difíceis e começam as difíceis porque dizem que se é para fazer que se faça já para terminar depressa. O meu cão no outro dia regressou depois de ter fugido. O meu pai diz que ele foi ter com as cadelas. O vizinho Norberto, diz a minha mãe, também tem uma cadela mas eu nunca o vi a passear e a apanhar o cocó dela. O meu vizinho Norberto anda sempre a cair. O meu pai diz que ele está com os copos mas eu nunca vi copos nas mãos dele. Por isso o meu vizinho Norberto deve ser mágico e esconde os copos no mesmo sítio da cadela.

Regresso é também como se chama a parte de trás de um pacote de leite da Gresso. Eu gosto mais da Mimosa porque isso é nome de vaca, e Gresso é nome de coisas que não sei o que são. Eu não sei tudo mas ando lá perto e só me falta saber o que é a palavra Gresso e os nomes de todas as estrelas do Universo e de Hóliude. As vacas e as ovelhas é que dão o leite. O leite de vaca vai para os pacotes e o das ovelhas vai para dentro dos queijos. O meu pai diz que as cabras também dão leite, mas eu não acredito porque no outro dia ouvi o vizinho Norberto a chamar cabra à mulher dele e ela nunca deu leite. No outro dia fui lá a casa deles dizer que tinha sede e ela deu-me um copo de água.

Eu agora vou voltar a escrever aqui, mas preciso de ajuda porque como já escrevi muitas coisas não me lembro do que escrever mais. Por isso vocês podem enviar-me temas para o meu emailhe oladoputo@gmail.com, que eu prometo que penso em vocês enquanto como torradas. As torradas são boas, mas quando ficam pretas sabem a carvão e a lápis númaro dois. O númaro três sabe a flores de laranjeira e a sabonete líquido do Lidl.

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Adeus?

Daqui o “pai” do puto. Ele não consegue escrever mais aqui. Um blog é algo que deve ser alimentado, e este está com fome há muito tempo. Talvez volte um dia. Ou não.

Ficam 62 postos em arquivo. Para consultar na barra lateral. E sorrir, se forem bons.

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Sobre os extra-terrestres

Os extra-terrestres são uma pessoas que não são pessoas porque não vivem em Portugal, e nem sequer no mundo e arredores. Os extra-terrestres são assim coisas que vêm de outros planetas, e só existem nos filmes americanos. Nos filmes da Europa e da França eles não existem, porque esses filmes são sempre sobre coisas para os adultos pensarem muito, e como os extra-terrestres não pensam muito bem, eles não entram nesses filmes.

Eu digo que os extra-terrestres não pensam muito bem porque nos filmes eles perdem sempre para os americanos, e eles já são bastante estúpidos, parvos, gordos e sebentos. Mesmo assim, os americanos têm coisas boas, como os cáubóis, hambrugas com queijo mas sem pimento, e o pato Mickey. Eles têm também outras letras no abecedário que nós não tínhamos, e que antes não faziam falta mas agora fazem para dizer worten, kaspa e ynconstitucionalissimamente, que é uma palavra grande, comprida e que não quer dizer grandes coisa porque tem a ver com a política, e a política, diz o meu pai, é chula e não vale um tostão. O tostão era uma moeda que existia quando o meu pai era pequeno. Agora já não existe porque o meu pai é grande.

Os extra-terrestres podem ser chamados de étês, que é também o nome de um filme antigo em que um senhor anão e pequeno vestia um fato de borracha, castanho com uma ponta vermelha com luz, e fingia telefonar para casa. Ele também dizia que era um extra-terrestre, só que era a fingir porque os extra-terrestres são todos verdes, que é a cor mais horrível e feia para ter na pele.

Ser extra-terrestre é uma chatice porque eles andam em discos voadores que giram muito depressa, e aquilo deve dar dor de cabeça. Além disso, como aquilo gira muito, eles andam sempre tontos e nunca acertam no sítio para onde querem ir. E é por isso que eles nunca chegaram ao nosso planeta e nem sequer a Portugal.

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Sobre a Internet

A Internet são uma data de computadores todos ligados com fios e sem fios, em que todos falam uns com os outros para podermos ver os sáites e o meu pai poder entregar o IRS. O IRS são umas letras que querem dizer Imposto Realmente Stúpido. Não se diz Estúpido porque senão o imposto chamava-se IRE, que é como os burros e incultos escrevem a palavra ir.

A Internet também se chama de net, que é o diminuitivo. Já o diminuitivo de net é netinha, que é como o meu avô Joaquim chama a minha prima. O meu avô está enganado porque a minha prima não tem nada a ver com a net. A net é interessante, enquanto que a minha prima é mariquinhas e só brinca com talheres e pratos de plástico.

A Internet quando apareceu foi na América já há muitos anos, mas mesmo assim os americanos continuam muito parvos e taralhoucos. A net veio para Portugal só depois do 25 de Abril, porque era como a Coca-Cola e não se podia ver, nem beber. A net não se bebe, mas dá para ver a Coca-Cola. A net chegou cá nos contentores de um navio e depois foi distribuída pelo país num dia em que os camionistas não fizeram greve.

A net inventou uma data de palavras novas porque as coisas que apareciam eram muitas e não havia nomes para todas. Apareceram palavras como dáuniló, sáite e belogues, que é aquilo que eu tenho aqui para todos verem. Se não se tivessem inventado esses nomes, se calhar chamava-se o dáuniló de espátula, o sáite de grande-penalidade e o belogue de jacinto, o que era uma grande confusão. Além do mais, o Jacinto, que mora no sexto esquerdo, dá muitos erros a escrever, e por isso era injusto dar o nome dele aos belogues. Assim, para não haver confusões nem gritarias, não se podem repetir palavras. O único sítio onde se pode repetir é no casamento, num rap ou no eco, mas aí a culpa já não é nossa.

A net é também a palavra que, em inglês estrangeiro, quer dizer rede. Isto é um pouco estúpido, porque o meu avô quando vai à net diz que não pesca nada, por isso net não pode ser uma rede.

Eu estive uns dias sem Internet e já estava a ficar maluquito porque não podia escrever aqui nem ler as notícias da bola. As outras notícias podia ler porque o meu pai compra o jornal e ainda aceita todos os jornais gratuitos que lhe dão. Eles diz que ler faz bem e eu já vi. Ele sai sempre aliviado da casa-de-banho quando vai para lá ler durante muito tempo. O chato é o cheiro que fica depois. Eu quando leio não cheiro mal, mas isso deve ser porque eu ainda leio pouco ou não o faço bem.

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Sobre os signos

Os signos são animais e objectos que dizem o que nos vai acontecer na vida e também no dia-a-dia. Não dizem o que vai acontecer à noite porque eles não conseguem ver no escuro.

Os signos estão espalhados pelos meses do ano, sem jeito e sentido nenhum, e por isso é preciso ter um calendário de bolso para saber qual é o signo do dia em que nascemos no mundo. Há também calendários de parede, mas esses não dá para termos na carteira porque têm imagens de senhoras nuas e perdizes mortas.

Os signos são vários e todos diferentes uns dos outros. Não são todos diferentes, todos iguais. São mesmo todos muito diferentes e nada parecidos. Eu não sei o que cada um deles quer dizer, mas sei o nome de alguns. São o touro, os peixes, os gémeos Cláudio e Carolina, o leão, o homem-cavalo, o caranguejo, a sapateira, o carneiro, o cabricórnio, a balança, o fia-te na virgem e não corras , o aquário e as árvores de fruto.

O único signo que eu conheço mais ou menos é o meu, que é o touro. O touro é aquela pessoa que é teimosa e gosta de vacas. Eu sou assim, por isso tive sorte no signo que me calhou. Se eu gostasse de carneiras já não podia ser touro e tinha que ser outra coisa. Mas assim é que eu gosto.

Existem pessoas que sabem o que vai acontecer às pessoas por causa dos signos. Elas chamam-se de evidentes ou signólogos. O meu pai também os chama de aldrabões e chulos, mas ele chama os árbitros da mesma forma, por isso não sei se os nomes estão certos ou verdadeiros.

Com excepção da sapateira, que vive no restaurante do Zé Algarvio, todos os signos vivem nas estrelas. Se um dia forem viajar de avião e virem um touro a pastar nas nuvens, digam-lhe olá e muuu, porque esse é o meu signo. Se virem uma balança não digam nada, porque as balanças normais não falam. Só as da farmácia é que falam alguma coisa, e mesmo assim é só para dizer o peso e o nível de castrol no sangue.

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